Como sobreviver aos novos tempos
Hoje o orkut me manda dar parabéns a um amigo que está morto desde janeiro do ano passado. Na página dele, além de pessoas bizarras e desconhecidas que fazem piadinhas e deixam scraps com dizeres de alto nível, o que mais me impressiona é que tem gente conhecida _mas não menos bizarra_ que escreve para ele mensagens do tipo "onde quer você que esteja".
Há uma consciência _bizarra_ de que, quando o sujeito morre, não pode receber carta, mas, talvez, possa acessar a web de vez em quando. Se assim for, lá encontrará coisas como "Cara, vai com Deus", "Nem sei o que dizer, estou chocada" ou "É uma grande perda".
Não se trata de discutir se há vida após a morte. Mas eu até me arrisco a dizer que uma coisa é certa: internet, depois da morte, não tem.
Ou então, vai saber, a grande rede pode ter criado uma nova questão existencial!
- Ei, você acredita em blog depois da morte?
- Ai, em blog, não. Só em e-mail. Sigo a linha mais ortodoxa.
Ou ainda:
- Sou Testemunha de Java, não posso compartilhar arquivos. Minha religião não permite essas misturas nem em vida.
O pior é que o coitado morreu e não pode apagar os scraps de desafetos e engraçadinhos. Eles vão ficar ali, para sempre, até que o próprio orkut se dê conta de que se transformou numa versão superprática de centro espírita. Você entra, envia sua mensagem para o morto de sua escolha, lava a roupa suja e fica com a consciência brilhando de limpa:
"Cara, desculpe aquela vez em que comi sua mulher. É que eu estava bêbado, e ela era muito gostosa. Estou contando isso agora porque não quero que fique essa mancha na nossa amizade."
O cidadão de bem morre e pode virar corno sem nem saber. Bom, todo mundo vai saber, menos ele _a experiência mostra que até pode haver acesso banda larga no Céu, mas o sistema ainda não permite apagar scraps. Fico pensando no cara lá, ao lado de São Pedro, sem conseguir apagar os scraps indesejados, soltando um belo de um palavrão (será que deixam falar palavrão no Céu?). Enquanto isso, na tela do micro, só aparece assim: "Bad, bad server. No donuts for you"
É preciso ter alguém de confiança com quem deixar a senha do orkut caso o pior aconteça. Esse é um problema novo, e os códigos ainda não dispõem sobre ele. "Se algo me acontecer, por favor, Fulano, não pense duas vezes antes de usar isso", e entrega um papelzinho com login e senha
Ainda não cheguei aos 30, mas me sinto velho. Essas coisas são demais pra mim. Não consigo lidar com certas hipocrisias com a mesma naturalidade de antes.
O que passa é que a velocidade dos tempos e das notícias ficou tão impressionante que não dá tempo de dar notícia de mais nada.
Ao menos três revelações bombásticas dos últimos tempos me fizeram rever conceitos, se é que não me deixaram deprimido:
1) Plutão não é mais planeta - Essa já virou clássica. Mas fico pensando em como ficam os modelos de Sistema Solar de isopor, como ficam as dicas para decorar os planetas, como fica toda essa cultura inútil que está aqui, guardada na minha cabeça. Como fica Disney e seu cachorro Pluto? "Não, Pluto, você não é mais personagem. Precisa deixar o parque". É injusto. Mas, queridão, quem te falou que o mundo é justo?
2) Fidel Castro usa Adidas - Tá, Adidas é legal. O ditador adoece e, na cama, na primeira foto pra provar que está vivo, aparece lá com o mesmo conjuntinho que seu avô usava, que seu pai usava, que sempre foi coisa de velho e que, por alguma razão que a própria razão desconhece, de uns anos pra cá virou cool e subiu de preço. Fidel de Adidas me parece contra-senso de primeira. A empresa é de origem alemã, como Marx, mas representa as grandes corporações internacionais, o capitalismo, o poder das marcas. Tá, poderia ser pior. Poderia ser a Nike. Mas aí já seria demais. Mas, queridão, quem disse que ia ser fácil entender o mundo?
3) Bin Laden guardava uma paixão (tinha um puta tesão reprimido) pela Whitney Houston. Esse, meu amigo, é o recorde. Bin Laden, o terrorista, o cara mau, o inimigo do sonho americano, também se seduz por uma bela morena. E daí se ela está decadente? E daí que é norte-americana? E daí que canta em inglês? Fico imaginando o barbudão lá, escondido, escutando um milhão de vezes a trilha de "O Guarda-costas", sonhando em ser o Kevin Costner. Mas, queridão, quem é que nunca fez uma bobagem tremenda por uma mulher?
É preciso aprender com o papelão do Bin Laden. Depois dessa, só o tifo mesmo para salvar o sujeito! Por tesão, o cara mais procurado do mundo se rendeu aos encantos do imperialismo ianque. Antes das crenças, antes dos princípios, antes do dinheiro, antes de tudo, vem o desejo.
Como diz um primo, se não existisse buceta, ninguém iria trabalhar todo dia de manhã. O sexo, por mais evoluídos que tentemos parecer, é o fim de tudo. Tá bom, a coisa dita assim, na lata, é um pouco chocante, um pouco triste e depressiva, mas é a mais pura verdade. Somos porcos babões. E, porque queremos sexo, é muito fácil nos fazer de gato e sapato.
Eu também adoro poesia, acredito no amor e ainda, que piada, acho que é possível mudar o mundo, fazer alguma coisa, sei lá, construir algo para a posteridade.
Mas, no fundo, a natureza grita por dentro e mostra que a civilização é só uma farsa, um teatro que montamos para fingir que somos superevoluídos. No fundo, o cara só sai todo dia para trabalhar para ter um bom salário, comprar um carro e enchê-lo de beldades _ou, vai, da beldade certa. A gente pode até tentar lutar contra tudo isso, mas, com o tempo, percebe que é assim. Esse é o resumo da vida de um homem. Qualquer outra coisa é desvio de rota.
Para nós, homens normais, cafajestes ou não, o exemplo do saudita é uma redenção. Não há como resistir. Se acontece até com o Bin Laden, pode acontecer numa boa com você.
De uma maneira insana, o terrorista se converte em Salvador. Tá aí um bom conselho. Por que voce não se levanta da cadeira agora e vai fundar uma igreja para venerar Bin Laden como o libertador dos homens? Se até o Maradona é Deus para uma igreja de fanáticos na Argentina (sério, existe a Igreja Maradoniana), por que esse preconceito contra o Bin Laden? Não dá pra negar que o cara foi responsável por feitos grandiosos. E, além do mais, poderia ser uma religião moderna, que acreditasse em internet depois da morte, sobretudo depois da morte.
Mas pense pelo lado bom, essa é a maior vantagem dos dias de hoje, dessa loucura que é acordar todo dia, ir trabalhar, encontrar a caixa de e-mails cheia de spam e o orkut cheio de mensagens coloridas de gente que você nunca viu. Esse tipo de redenção, proporcionado pelo que há de mais bizarro, não aconteceria nunca nos tempos em que Plutão era planeta.
Bizarro. Essa palavra é mesmo muito boa.
Conselho de hoje:
Lutemos, mas só pelo direito ao nosso estranho amor.