Tenho uma amiga que namorou um palhaço. E o sujeito não era nem babaca, era só palhaço. Nariz vermelho, sapato comprido, gola sobe-e-desce. Palhaço de circo.
No começo, ela achava tudo muito engraçado. Dizia aos amigos: "É, ele é palhaço." E ria, ria, ria de si mesma. Era engraçado ter um namorado palhaço.
Depois, nas mesas de bar, passou a ser chato explicar sempre a mesma história. Alguém perguntava: "E você, Fulano, o que faz da vida?" O rapaz respondia: "Eu sou palhaço!". Riso geral, e o primeiro insistia: "Não, eu tô falando sério. O que você faz?" E o namorado, de novo: "Eu sou palhaço!". Gargalhada geral. Que pândego! Devia ser economista e tal e ficava inventando história... "Ah, não? É palhaço mesmo, desses de circo?"
Decepção geral. Justamente porque o sujeito era palhaço de verdade é que a situação perdia toda a graça. E o rapaz contava que era uma tradição em sua família: pai palhaço, avô palhaço, todo mundo palhaço. Os constrangidos, os que tinham rolado de rir da honrada profissão, acabavam sempre descobrindo dores de cabeça fortíssimas ou até massas de bolo esquecidas no forno. "Ah, eu já vou indo, preciso tirar o papai da forca."
Pois, sim, a moça passou a prevenir os amigos nas mesas de bar. O namorado ia ao banheiro, e ela aproveitava a deixa: "Gente, por favor, ele é palhaço... É, desses de circo. Pelo amor de Deus, não perguntem nada, OK?" Mas sempre havia um desavisado, um paquera de alguém que chegava mais tarde, um amigo no lado oposto da mesa e...
- E você, Fulano, que é que você faz?
Só sobravam lamúrias. E o maior dos lamentos era justamente o de que apenas ela se importava! Para o namorado, tudo era tranqüilo _ele era o palhaço! Passara a vida inteira explicando, "sim, desses de circo", tirava tudo aquilo de letra e ainda fazia piada. Já para a moça, não, era duro. Palhaçada tinha limite! Coitada.
Decidiu, depois de muito tempo, assistir ao namorado em ação, na arena, vestido de palhaço. No circo, percebeu como ele era ótimo, como tinha talento. Lá estava ele, cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço! E a moça gostou. Encantou-se pelo modo como as crianças se encantavam por ele, ele mesmo, seu namorado, o palhaço de circo!
Mas outro dia, em uma mesa de bar, ela me revelou o desfecho da trama, da comédia tragicômica que foi seu enlace com o discípulo do Carequinha.
"Perdi o tesão", disse ela. "Nunca mais consegui transar com ele. Pensava no nariz vermelho, naquela gola, naquele sapato enorme. Não rolou mais nada."
Triste. Tristíssimo, meu caro amigo. E a história serve pra todo mundo. Aquilo que encanta pode ser justamente o que bota pra correr o amor.
Gaiatice e cafajestagem têm limite. Pode ser que, no início, a mulher até ache graça, que ache bonitinho o seu lado palhaço. Mas, uma hora ou outra, ela acorda e te troca por outro.
Para mais detalhes sobre palhaçadas, recomendo a leitura do site Homem é Tudo Palhaço.
O pobre do palhaço da história _que terminou chorando, como no quadro clássico (e brega)_ não teve culpa de nada. Mas esse não é o seu caso, certo? Todo mundo sabe quando erra.
Eu já terminei namoro por telefone, já sumi sem deixar rastro, já fiquei com duas ao mesmo tempo. Mas o fato é que, no fundo, sou um romântico inveterado.
E quem nunca foi palhaço que atire a primeira lágrima.

Conselho de hoje:
Na tua lista de golpista tem um bobo a mais.
2 comentários:
Gostei deste post demais. Pra completar aparece o Che.
wtf, pq comments? visito o blog há anos, mas não visito há anos =P resolvi dar uma lembrada, parabéns.
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