sábado, 24 de maio de 2003

Como se arrepender

Cafajeste que é cafajeste não se arrepende, por mais que faça o que não deve. Mas, como o objetivo deste site é ajudar os cafajestes de plantão a serem mais humanos e, quem sabe, mais felizes, vai aqui mais um conselho.

Arrependei-vos, ó, cafas, de todo o mal que fizerdes ao mundo!

Do mal que ainda está na mente e do que ali nunca esteve. Do mal praticado em sã consciência, em consciência insana e em completa inconsciência.

Não, não me converti a nenhuma religião estranha, mesmo porque estranhas são nossas cabeças, capazes de encher de adjetivos o que não conhecemos de perto.

Não falo de arrependimento religioso, mas de um arrependimento, digamos, jurídico.

Quem sabe um pouco de Direito Penal já deve ter ouvido falar de "arrependimento eficaz".

Está aí um conceito interessante: você pode até dar veneno a alguém, desde que, em seguida, dê também o antídoto.

Existe o risco, é verdade, de o antídoto não fazer efeito, e a pessoa morrer. Se isso ocorre, quem deu o veneno é culpado, mesmo que tenha dado o antídoto ou mesmo que a vítima tenha preferido morrer, recusando-se a tomá-lo.

OK, mas o mais divertido é que, se a pessoa não morre, não existe punição.

O que quero dizer é que a boa medida de uma cafajestagem é a do veneno que vem pouco antes de seu antídoto.

O importante é estar atento para corrigir a coisa a tempo. Mas não se esqueça de que há um, digamos, "ponto de inevitabilidade", como acontece na _eu e minhas comparações_ ejaculação. Há um limite que, se ultrapassado, não autoriza o retorno.

Depois, até é possível se arrepender, mas esse arrependimento não lhe será tão benéfico. Restará a tarefa de juntar os caquinhos.

A idéia é se arrepender sempre, mas de forma eficaz, sem dar espaço para o arrependimento posterior, que só produz sofrimento. Aí está o jeito correto de se arrepender.

Se fez, bandidão, assuma e pronto! Você quis, teve vontade, podia até não saber bem o que estava fazendo, pode não ter sido planejado, mas você já fez. Não se martirize.

Estive em Belo Horizonte há alguns dias e descobri que a nova moda entre as crianças que pedem esmolas no sinal (farol, para os paulistas) é não pedir nada _pelo menos não diretamente. Não imagina como? Eles cantam, meu caro. Chegam à janela do seu carro e cantam:

"Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz..."

O sujeito se enche de culpa e entrega logo R$ 10 para o moleque.

E de que adianta esmola? Melhor dar comida, dinheiro não tem destino certo, cai na mão de quem explora a criança, essa loucura toda que a gente já sabe.

Mas, se o sujeito, cafa ou não, enche-se de culpa, não faz mais que a obrigação!

Ou vai dizer que a culpa não é um pouquinho sua, na verdade um belo tanto sua e, em última análise, inteiramente sua?

A culpa é indivisível, meu caro. Quem matou não matou "menos" porque teve um comparsa.

A culpa é de cada um de nós, por inteiro.

Portanto, vamos logo ao arrependimento. Com eficácia.

Conselho de hoje:
Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio.