Como conversar com a Luana
(conselho pedido por Fábio)
Sim, meu amigo. Eu falei com ela. Toquei, dei beijinho. Não foi na boca, que não estou com essa bola toda, mas dei beijinho.
Não tem jeito. Homem diante de mulher bonita fica mesmo um pouco idiota. Bom, fica sempre muito idiota.
Eu, feito louco, alucinado e criança, entrevistei um dia desses a Luana. É, a Piovani.
A moça foi uma simpatia só, apesar de certos ares de estrela. Tudo bem, isso a gente releva.
Conto _em mais um momento adolescente_ que ela exibia um belo decote, em camiseta dessas com alças fininhas. Tesão.
Não estava produzida, estava loura em excesso por causa da personagem que está fazendo no teatro _Alice_ e mesmo assim estava linda. Palmas pra ela. A galera vibra.
No mais, aproveito o momento para filosofar sobre como falar com uma mulher bonita. Perguntinha das mais difíceis enfrentadas pelo Cafajeste.
Falar com uma mulher bonita exige, tenho concluído isso com o tempo, uma preparação psicológica. Tudo é uma questão de autoconfiança.
Falar com uma mulher muito bonita, no entanto, exige do sujeito bem mais do que isso. É preciso sangue de barata e muita cara-de-pau.
Você sabe do que eu estou falando. Quantos caras você conhece que nunca se atreveram a dirigir a palavra à mais bonita da festa, ou da classe, ou do bairro, ou do finalzinho da festa, quando até a maior das mocréias pode ficar linda? É tipo aquela propaganda da Pepsi. Era da Pepsi, não era?
Se você é do tipo que treme nas bases, que mija nas calças, que gagueja assim que dá de cara com a pequena, este conselho é para você.
O que você tem a perder falando com ela? Se para você ela é algo assim tão maravilhoso, que mal há em puxar uma conversinha?
OK, muitas delas podem esnobar você. Mas e daí? No momento em que ela te esnoba, não é você que é desprezado, é ela quem automaticamente fica bem menos bonita e inteligente do que era antes.
Entende? Se ela não quer nem ouvir o que você tem a dizer, melhor olhar direito, pois posso garantir que ela não é tão bonita assim.
Olhe bem, compare as medidas. Lembre-se da Luana. É, a Piovani. Pense nela e veja se a sua musa ainda se equilibra no pedestal.
No meu caso, me lembro sempre da Luana. Ou da Piovani ou da minha mãe, que tem o mesmo nome. Tudo depende da situação.
Lembrar da minha mãe, com quem, confesso, também não é muito fácil conversar, ajuda a ter em mente que só a melhor das mulheres merece o filhinho da mamãe.
E todo cafajeste que se preze, no fundo, é o filhinho da mamãe.
Conselho de hoje:
Na vida só resta seguir um risco, um passo, um gesto rio afora.
sexta-feira, 25 de abril de 2003
terça-feira, 15 de abril de 2003
Como viver em São Paulo
O caminho para São Paulo é apagar todas as estrelas do céu e acendê-las de novo no chão.
Foi assim que vim pra cá, sem saber o que seria de mim. Ainda não sei.
Se você pensa em largar Minas, deixar a Bahia, sair de Canindé, no Ceará, e vir para São Paulo, esteja preparado para encontrar muito do novo e muito do mesmo. Todo dia haverá surpresa; todo dia haverá tédio _tudo isso ao mesmo tempo, no mesmo mergulho e no mesmo flash.

São Paulo me deu um amor que não deu certo, toalhas de mesa e a primeira melancia que comprei com meu dinheiro. São Paulo me deu colegas de apartamento, amigos toscos e apaixonados, noites sem dormir, beijos no sofá da sala.
São Paulo me deu "Ronda" cantada por Vanzolini, taxa do lixo e a promessa de um novo amor. São Paulo me deu choro engasgado, ordem a ser cumprida sem choro nem vela e choro de tanto riso. Por fim, São Paulo me deu garoa fina, chuva de verão com hora marcada e tempestade que faz até desabar barraco.
Em um desabamento, coisas de São Paulo, encontrei um haicai em uma página de livro, bem no meio da lama e do que sobrou da casa de um pintor que perdeu sete parentes. Foram soterrados após uma forte chuva.
"Que cheiro cheiroso de terra molhada quando a chuva chuvisca." Era o haicai, e o sol estava no alto do céu.
Em um hotel no bairro dos Jardins, na mesma São Paulo, conheci um pianista de 76 anos que me disse que só há dez anos descobriu sua verdadeira vocação. Era compor e tocar canções de todo tipo!
Eu estava parado na porta do bar do hotel, cansado em um final de dia, quando ele me perguntou se eu tocava algum instrumento.
Disse que não, mas que ainda haveria de aprender. Ele sorriu e contou sua história.
Quando jovem, disse ele, queria ser escritor. "Mas nunca fui bom com as palavras, descobri que minha linguagem é a música." E tocou "Gente humilde" no piano.
Na saída, depois de cerca de meia hora de conversa, perguntei o seu nome.
"Tchaikovski", respondeu ele. Satisfeito com a resposta, peguei meu rumo.

São Paulo é isso tudo, haicai triste em dia de sol, canção triste em tarde feliz, sorriso largo e sorriso tenso. E pressa, mais do que tudo, mais do que todos, toda hora, não importa o destino, o caminho, o motivo.
Atrasado para o cinema, para o trabalho, atrasado para o próprio atraso, planejado na agenda de quem não quer perder compromissos, vivo o dia de hoje e só ele.
Ninguém disse que seria fácil, mas muita coisa me falta das promessas que me fiz. Está aí algo que não se deve fazer: promessas.
São Paulo ainda me deve um edredon. E, por mais que eu pense que a cidade tem comigo essa e outras dívidas por honrar, ela me olha com sorriso maroto. Para ela, estamos quites.
Conselho de hoje:
A mente apavora o que ainda não é mesmo velho.
O caminho para São Paulo é apagar todas as estrelas do céu e acendê-las de novo no chão.
Foi assim que vim pra cá, sem saber o que seria de mim. Ainda não sei.
Se você pensa em largar Minas, deixar a Bahia, sair de Canindé, no Ceará, e vir para São Paulo, esteja preparado para encontrar muito do novo e muito do mesmo. Todo dia haverá surpresa; todo dia haverá tédio _tudo isso ao mesmo tempo, no mesmo mergulho e no mesmo flash.

São Paulo me deu um amor que não deu certo, toalhas de mesa e a primeira melancia que comprei com meu dinheiro. São Paulo me deu colegas de apartamento, amigos toscos e apaixonados, noites sem dormir, beijos no sofá da sala.
São Paulo me deu "Ronda" cantada por Vanzolini, taxa do lixo e a promessa de um novo amor. São Paulo me deu choro engasgado, ordem a ser cumprida sem choro nem vela e choro de tanto riso. Por fim, São Paulo me deu garoa fina, chuva de verão com hora marcada e tempestade que faz até desabar barraco.
Em um desabamento, coisas de São Paulo, encontrei um haicai em uma página de livro, bem no meio da lama e do que sobrou da casa de um pintor que perdeu sete parentes. Foram soterrados após uma forte chuva.
"Que cheiro cheiroso de terra molhada quando a chuva chuvisca." Era o haicai, e o sol estava no alto do céu.
Em um hotel no bairro dos Jardins, na mesma São Paulo, conheci um pianista de 76 anos que me disse que só há dez anos descobriu sua verdadeira vocação. Era compor e tocar canções de todo tipo!
Eu estava parado na porta do bar do hotel, cansado em um final de dia, quando ele me perguntou se eu tocava algum instrumento.
Disse que não, mas que ainda haveria de aprender. Ele sorriu e contou sua história.
Quando jovem, disse ele, queria ser escritor. "Mas nunca fui bom com as palavras, descobri que minha linguagem é a música." E tocou "Gente humilde" no piano.
Na saída, depois de cerca de meia hora de conversa, perguntei o seu nome.
"Tchaikovski", respondeu ele. Satisfeito com a resposta, peguei meu rumo.

São Paulo é isso tudo, haicai triste em dia de sol, canção triste em tarde feliz, sorriso largo e sorriso tenso. E pressa, mais do que tudo, mais do que todos, toda hora, não importa o destino, o caminho, o motivo.
Atrasado para o cinema, para o trabalho, atrasado para o próprio atraso, planejado na agenda de quem não quer perder compromissos, vivo o dia de hoje e só ele.
Ninguém disse que seria fácil, mas muita coisa me falta das promessas que me fiz. Está aí algo que não se deve fazer: promessas.
São Paulo ainda me deve um edredon. E, por mais que eu pense que a cidade tem comigo essa e outras dívidas por honrar, ela me olha com sorriso maroto. Para ela, estamos quites.
Conselho de hoje:
A mente apavora o que ainda não é mesmo velho.
quarta-feira, 9 de abril de 2003
Como não voltar sozinho para casa
(conselho pedido por William)
Uma bela maneira de não voltar para casa sozinho é, veja como é fácil, não voltar para casa. Para isso existem os postos de conveniência, as lanchonetes 24 horas, as academias de ginática que não fecham as portas.
Indo a lugares assim, você pode não acreditar, mas aumentam muito suas chances de encontrar uma pequena ao seu estilo.
Se você vai às festas, às baladas, à curtição, à night e a seja lá como você chama uma noite em que sai com os amigos, se tenta conversar com as mulheres e nunca dá certo e se já tentou a oração do conselho anterior e isso não funcionou, este conselho é exatamente para você.
Por que é que seu charme funciona tão bem no trabalho, nas conversas à luz do dia, mas à noite, quando as gatas são pardas, nada sai como você planejou?
OK, é isso que você quer saber?
SEUS PROBLEMAS ACABARAM.
Primeiro: Não faça planos. Saia de casa. Assim, simplesmente. Veja o mundo à sua volta. Observe os desígnios de Deus.
Segundo: Se todo o papo de desígnios de Deus não levar você a canto algum, não esmoreça.
Terceiro: Pense bem. Se você não faz planos, tudo que vem é lucro.
O conselho de Alberto Caeiro é ideal nesses casos: não pense. A única inocência é não pensar.
Meu caro, não fique assim, sozinho. Homem é artigo em falta hoje em dia. Coisa fina, não se compra mais em liquidação. Mulher tem de penar é muito para ter o seu.
Pense em você como um produto de luxo _só, por favor, não use a palavra glamour para se referir a si mesmo.
É chavão, mas a gente diz: te valoriza, rapá!
Esteja convencido de que sua missão no mundo é fazer as mulheres felizes _é isso o que elas querem, não é?
Leia o conselho "Como ser bonzinho", decore-o palavra por palavra. Até eu, confesso a você, tenho precisado dele como nunca. Decore-o.
Fazer uma mulher feliz não significa namorar, babar, rastejar-se, ameaçar se atirar da Torre de Pisa ou coisa parecida.
Aliás, quem disse que viajar não afasta problema? Esqueça a sabedoria das novelas da Globo. Se puder viajar, viaje. E, se você tem mesmo dinheiro para ir à Itália, vamos combinar que você não tem tantos problemas como diz que tem.
OK, Itália não vai dar agora. De fato, não está rolando nem Parati. Tudo bem, viajar não resolve problema nenhum, já diria a ricaça da novela.
Se elas estiverem querendo, dê a elas o que elas querem. É isso.
Surpreenda. Ria de si mesmo. Escute mais e fale menos.
E, cara, não fique nervoso ao conversar com as mulheres. Se durante o dia você vai bem, o que é que muda?
Das duas uma: ou você está errado de dia ou de noite. Se disser que à noite tudo naufraga porque você está interessado "em algo mais", esqueça. A vida é um flerte só, cara pálida. Por que é que de dia você não se interessa por ninguém?
E lembre-se: até assuntos como física quântica, florais de Bach ou orelhas de elefante podem ser românticos. Não há temas proibidos. O importante é não fazer força para agradar ou ser romântico. Agrade. Seja romântico.
Afinal, é assim que você é normalmente, certo?
Conselho de hoje:
Não tem nenhum engano nem mistério. É tudo só brincadeira e verdade.
(conselho pedido por William)
Uma bela maneira de não voltar para casa sozinho é, veja como é fácil, não voltar para casa. Para isso existem os postos de conveniência, as lanchonetes 24 horas, as academias de ginática que não fecham as portas.
Indo a lugares assim, você pode não acreditar, mas aumentam muito suas chances de encontrar uma pequena ao seu estilo.
Se você vai às festas, às baladas, à curtição, à night e a seja lá como você chama uma noite em que sai com os amigos, se tenta conversar com as mulheres e nunca dá certo e se já tentou a oração do conselho anterior e isso não funcionou, este conselho é exatamente para você.
Por que é que seu charme funciona tão bem no trabalho, nas conversas à luz do dia, mas à noite, quando as gatas são pardas, nada sai como você planejou?
OK, é isso que você quer saber?
SEUS PROBLEMAS ACABARAM.
Primeiro: Não faça planos. Saia de casa. Assim, simplesmente. Veja o mundo à sua volta. Observe os desígnios de Deus.
Segundo: Se todo o papo de desígnios de Deus não levar você a canto algum, não esmoreça.
Terceiro: Pense bem. Se você não faz planos, tudo que vem é lucro.
O conselho de Alberto Caeiro é ideal nesses casos: não pense. A única inocência é não pensar.
Meu caro, não fique assim, sozinho. Homem é artigo em falta hoje em dia. Coisa fina, não se compra mais em liquidação. Mulher tem de penar é muito para ter o seu.
Pense em você como um produto de luxo _só, por favor, não use a palavra glamour para se referir a si mesmo.
É chavão, mas a gente diz: te valoriza, rapá!
Esteja convencido de que sua missão no mundo é fazer as mulheres felizes _é isso o que elas querem, não é?
Leia o conselho "Como ser bonzinho", decore-o palavra por palavra. Até eu, confesso a você, tenho precisado dele como nunca. Decore-o.
Fazer uma mulher feliz não significa namorar, babar, rastejar-se, ameaçar se atirar da Torre de Pisa ou coisa parecida.
Aliás, quem disse que viajar não afasta problema? Esqueça a sabedoria das novelas da Globo. Se puder viajar, viaje. E, se você tem mesmo dinheiro para ir à Itália, vamos combinar que você não tem tantos problemas como diz que tem.
OK, Itália não vai dar agora. De fato, não está rolando nem Parati. Tudo bem, viajar não resolve problema nenhum, já diria a ricaça da novela.
Se elas estiverem querendo, dê a elas o que elas querem. É isso.
Surpreenda. Ria de si mesmo. Escute mais e fale menos.
E, cara, não fique nervoso ao conversar com as mulheres. Se durante o dia você vai bem, o que é que muda?
Das duas uma: ou você está errado de dia ou de noite. Se disser que à noite tudo naufraga porque você está interessado "em algo mais", esqueça. A vida é um flerte só, cara pálida. Por que é que de dia você não se interessa por ninguém?
E lembre-se: até assuntos como física quântica, florais de Bach ou orelhas de elefante podem ser românticos. Não há temas proibidos. O importante é não fazer força para agradar ou ser romântico. Agrade. Seja romântico.
Afinal, é assim que você é normalmente, certo?
Conselho de hoje:
Não tem nenhum engano nem mistério. É tudo só brincadeira e verdade.
quarta-feira, 2 de abril de 2003
Como rezar quando se está na seca
O conselho veio da boca de uma menina com seus seis ou sete anos e inspirou até o roteirista Jorge Furtado, na hora de adaptar para o teatro a história de "Alice no País das Maravilhas".
É fruto de uma deliciosa confusão, que serve muito bem como apelo de marmanjo que há tempo não vê mulher.
"Ave, Maria,
cheia de graça,
é ela menina
que vem e que passa,
num doce balanço
a caminho do mar"
E não se trata de heresia, é só cortesia.
Conselho de hoje:
Olha, está chovendo na roseira.
O conselho veio da boca de uma menina com seus seis ou sete anos e inspirou até o roteirista Jorge Furtado, na hora de adaptar para o teatro a história de "Alice no País das Maravilhas".
É fruto de uma deliciosa confusão, que serve muito bem como apelo de marmanjo que há tempo não vê mulher.
"Ave, Maria,
cheia de graça,
é ela menina
que vem e que passa,
num doce balanço
a caminho do mar"
E não se trata de heresia, é só cortesia.
Conselho de hoje:
Olha, está chovendo na roseira.