Como se despedir
Despedir-se sem tremer os joelhos e sem derramar um oceano de lágrimas é tarefa dura quando existe sentimento de verdade.
Seja um mês ou um ano, uma semana ou um período indeterminado, simplesmente acenar e dizer tchau, quando a ausência será sofrida e cotidiana, sentida em cada dia, em cada manhã, em cada refeição e em cada filme da tv a cabo, é impossível.
Ainda mais para quem prega que homens não choram, não se emocionam e não se deixam levar por toda a baboseira sentimental.
Eu, que choro, me emociono e me deixo _sim!_ levar por toda a baboseira sentimental, ainda considero dificílimo me despedir.
Se você é dos meus, e já aprendeu que problema não há em demonstrar sentimentos, sabe que isso não facilita as despedidas, apesar de tornar a vida mais verdadeira.
Qual é, então, a melhor maneira de evitar o sofrimento?
Será despedir-se aos poucos? Será fazer tudo no último minuto? Será fingir que nada acontece, que o dia seguinte será como o anterior? Será viver mais intensamente os momentos restantes e aproveitar cada segundo antes da partida?
Não sei. Caro amigo, não sei mesmo o que fazer.
Penso nisso todos os dias e ainda não tenho resposta.
Está certo que o que causa a despedida é uma boa notícia, motivo de orgulho e festa, mas, no fundo, o que fica é um pouco de tudo: mistura de alegria e desgosto.
Não morreu ninguém. Aliás, morreu um montão de gente, inclusive o Roberto Marinho, mas isso pouco importa.
Não importa a hora de ir ao trabalho, não importa o sono, não importa o atraso e não importa o compromisso. Já não há compromissos porque o tempo se acaba. Falta pouco. Logo ela vai, antes que tudo tenha sido dito e esclarecido.
Com ela, pelos próximos seis meses (e agora uns dizem "só isso?" e outros "tanto assim?"), vão todas as chances de definição. Com ela, vão alguns medos e declarações de amor engasgadas e não-realizadas. Com ela, vai um pouco da minha história em São Paulo, do que aprendi a ser, dos risos, dos edredons (sim, eu comprei o meu edredon, que a cidade me devia!), das pipoquinhas, das multas na locadora, dos copos d´água e dos casamentos argentinos.
E, acredite, parece incompreensível, mas tudo isso se resume em uma lágrima que escorre dos olhos e já cai dentro da boca, deixando o salgado na língua.
Hoje, tudo que não foi dito se transforma em chorinho besta. Mi Mi Mi. Um choro que, sozinho, se alimenta, e chora de novo, pra dentro do corpo, de um jeito que parece que só há uma lágrima e que é ela, a mesma gota, que desce toda hora dos olhos, escorre pelo rosto, encontra os lábios e a língua, mistura-se na saliva e, de alguma maneira desconhecida pela ciência, retorna aos olhos, aos velhos canais lacrimais, e retoma sua função, eternamente na cadência de lágrima.
E tudo o que deveria ser dito, não é. Porque o melhor e o mais importante agora é fechar os olhos para curtir o abraço, o beijo. São seis meses. Seis meses. Seis meses de um medo de que depois deles tudo seja diferente, que não dê mais para voltar, para ser como antes. Medo de mudar e querer outras coisas, medo de que ela mude e queira outras coisas.
Há, meu amigo, um turbilhão de coisas e pessoas dizendo que isso não pode e nem deve dar certo. Há quem faça torcida para que tudo se acabe antes mesmo de começar direito.
Mas, seguindo o exemplo da história que vivo com essa menininha, toda ao contrário _primeiro o morar junto e a divisão das contas, depois a intimidade e, por último, o beijo_, algo me diz que o melhor é inverter a lógica.
Não se despedir, talvez seja essa a saída.
Dizer ciao, como os italianos, para depois ficar na dúvida se é começo ou fim, despedida ou cumprimento.
Conselho de hoje:
Corra e olhe o céu, que o sol vem trazendo bom dia.