Como é possível amar e o amor não dar certo
Quem já amou sabe: amor não garante nada. Não garante carinho, nem atenção, nem felicidade. O amor é lindo, poético, gostoso e surpreendente; mas não é nada além de amor.
E como "nada além"? Precisa de algo mais? Precisa.
Descubro, caro amigo, que mesmo quem ama pode fazer sofrer. É possível amar com tal zelo e sempre e tanto, que o objeto de amor termina incomodado. É possível amar de um jeito tanto, que, desse tanto amar, pode nascer o desamor.
Por que há sempre quem pense que é pouco cuidado quando merece todo os carinhos? E também há quem pense que não errou quando errou feio, por que será? Há o que vê o erro onde ele não existe, nunca houve e nem haveria porque o amor é maior do que tudo. E há ainda o que se deixa possuir pelo medo de errar e, assim, erra, todos os dias, em cada frase, em cada respiração, de forma que, quanto mais ama, mais erra.
O amor, meu caro, é castigado pela rotina. O amor passa, então, a materializar-se em tão poucas oportunidades, que sofrem os corações dos amantes. Apertados de paixão, passam a ferir um ao outro com a certeza de que a culpa é alheia.
E sabe do que mais? A culpa é dos dois, dos dois que se amam e nunca podem, nunca têm tempo. Do detalhe que não é detalhe e passa despercebido nascem todos os problemas que põem fim ao amor.
Por isso, aniversário esquecido, incômodo escondido, e-mail não respondido, beijo não correspondido, tudo isso faz o amor morrer todos os dias. E, na pressa de amar, no amar depressa, os que se amam sequer percebem o que se passa.
É sabido que do amor mais quente ou possessivo ao mais generoso ou desprendido, há uma enorme gradação de sentimentos e ritmos cardíacos.
Se primeiro ama-se porque é novidade, depois, justamente porque não é e continua a surpreender. Ama-se porque é notório e porque ninguém sabe. Ama-se com medo, com raiva e dúvida, e é possível amar com ternura pedinte ou pedante. Amar com abuso, sem jeito e com pressa, amar dolorido, calado, no escuro, amar até no banco dos réus!
Por fim, amar e simplesmente amar, porque talvez toda a graça esteja na arte pela arte, no amor pelo amor, e o resto que se exploda.
Vai-se ver, lá está a mesma essência! Porque por mais que se ame assim ou assado, ao avesso ou de ponta cabeça, ama-se _e é isso que importa.
Mas o amor, seja ele de uma ou de outra espécie, precisa ser cultivado feito plantinha frágil. Como rosas e margaridas, como violetas e amarílis, o amor é uma florzinha que teima em viver, mas que, descuidada, morre. Amor com flor é rima tosca, mas não passa da mais pura das verdades.
O amor, só com ele é possível aproveitar a vida. Ele vem com gotículas de sofrimento, feito orvalho na flor, mas que se há de fazer?
A resposta é simples: amar. Amar mais e com plenitude. Como isso é possível é pergunta e resposta diária. O que vale, no final, é sempre o amor e não os probleminhas que ele traz.
"Existirmos _a que será que se destina?"
"Apenas a matéria vida era tão fina."
Conselho de hoje:
Não valham dramáticos defeitos. Mas o que está depois.
1 comentários:
Impressionante suas palavras !!! Perdi, aliás ganhei uma manhã lendo seu Blog e consigo apenas dizer: Obrigada !!!
Estarei sempre aqui, lendo, aprendendo, revendo.
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