quarta-feira, 20 de novembro de 2002

Como se lembrar de coisas boas

É claro que o ideal é somente se lembrar das coisas boas _deixando de lado tudo o que é ruim. Isso é mais fácil do que parece.

Cafajeste que é cafajeste tem memória curta. Vai dizer que não tem? Por que então não usar essa habilidade mais que natural para o bem da humanidade?

Existem horas, é fato, em que o que se tem a fazer é esquecer. Para que ficar remoendo aquela pisadela no pé, aquele cocô de passarinho, aquela cara emburrada do colega de trabalho? Não vale a pena. Melhor pensar em coisas boas.

Pensar em coisas boas... Não era essa a receita de vôo do Peter Pan?

Agora vem a dica do século: como se lembrar somente de coisas boas?

A melhor maneira de fazer isso é, veja como é simples, esquecer completamente os episódios ruins.

Clique em lembranças negativas, selecione tudo e delete. Isso é o que faz o Cafajeste.

Meio caminho andado é não guardar rancor. Se tiver raiva, dê uns murros na parede _ou até no sujeito que passou dos limites_, mas não guarde o ódio para remoer depois. Se esse fosse um site mulherzinha, você leria: querida, não sinta raiva, faz mal pra pele.

NÃO SEREMOS HIPÓCRITAS A PONTO DE DIZER QUE É POSSÍVEL NÃO SENTIR RAIVA.

Meu caro, não é. Raiva é como frio, tesão, cheiro de café de vó: é impossível não sentir. Impossível viver em uma bolha, em um mundinho cor-de-rosa onde ninguém contraria ninguém! É normal querer partir a cara de alguém que puxou o seu tapete, querer que um ou outro maldito prove do próprio veneno. É impraticável gostar de tudo e de todos. É impensável que tudo saia exatamente como planejamos.

Enfim, já que não dá pra não sentir, melhor esquecer logo depois. Melhor colocar logo pra fora _gritar, chorar, bater_ e chegar ao fim do dia com a alma lavada.

Mais tarde, na hora de procurar uma lembrança, por mais que o cérebro tente, só vai achar coisas boas.

Quando é um amigo que vai embora, melhor que fiquem na memória as coisas legais que ele fez por você. E não aquele dia em que tudo deu errado. Quando termina o amor, melhor guardar aquela coisa engraçada que ela disse, e não o dia em que você broxou _a não ser, é claro, que ela tenha dito a coisa mais engraçada do planeta exatamente nesse momento infeliz.

Boas dicas para dias tristes: picolé de limão e passeio na chuva no meio da tarde. Se você for um tigre triste, também serve uma tigela de trigo.



Com esse exercício, a gente acaba descobrindo que há coisas que estão tão enraizadas, que já fazem parte de nós. Quer coisa pior do que descobrir que a raiva ou o desprezo que você tem pelo seu chefe faz parte do seu mais íntimo ser? Terrível.

Por isso é importante pensar nessas questões antes que o dia se torne história, a história se torne caso pra contar de noite e o caso pra contar de noite se torne o maior dos pesadelos. Tendo isso em mente, dá para identificar o que é bom _e aí sim fazer força para que a coisa boa faça parte de você, que venha passear várias vezes nos seus miolos. É assim que fica claro que há pessoas, e coisas, e gestos, e canções, e versos bobos em papel de pão, e dias na chuva, e beijos molhados, e tortas de maçã, e bochechos com água gasosa que são absolutamente impossíveis de apagar da memória.

Só peço a você um favor, se puder: não se esqueça das lições do Cafajeste. Para casos de amnésia absoluta, existe um link no final do site.

Conselho de hoje:
Tem pessoas que a gente não esquece nem se esquecer.

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