sexta-feira, 15 de novembro de 2002

Como saber quando parar

Sentimento é diferente de investimento. E isso tem conseqüências trágicas: mesmo o sujeito mais apaixonado pode se dar conta, de uma hora para outra, de que não acredita mais que o relacionamento pode dar certo. Mesmo amando, falta vontade e confiança para apostar todas as fichas.

Essa é a hora exata de dizer que não dá mais. Pode ser duro, pode ser mau, mas assim é a vida. Você pode ser chamado de doido _ou até de cafajeste. Bobagem, isso é questão de dignidade.

Não pense que é frieza minha, mas relacionamento é contrato. Seja casamento, namoro ou tico-tico no fubá, sempre começa com um acordo de vontades, com um querer exatamente o que o outro tem a oferecer, seja lá o que for. Se há concordância, o relacionamento é legítimo. E ponto.

Mas, se de uma hora para a outra alguém percebe que não vai ser feliz, que prefere de outro jeito, que não quer ser pobre e apaixonado, como sempre acreditou, mas rico (bem rico) e o resto que se dane, melhor dizer logo. Apesar do amor.

Primeiro, porque nessas condições o amor não dura muito. Depois, porque quem deixa de acreditar rompe o contrato, o acordo firmado entre os que se amam! Aí, por mais que não seja adequado berrar um "isso não", é dever de quem ama dizer "assim não".

Quando o amor permanece, mas há tempos foi-se o respeito ou a vontade de plantar e construir, melhor pular fora, cantar pra subir, dizer tchau e bênção. Pode ser sofrido a curto prazo, mas o efeito é proveitoso, se você pensar um pouco.

O amor pode até não dar certo, mas, para que tenha essa chance, é preciso que os envolvidos acreditem que dará. Essa confiança pode fazer toda a diferença! Ora bolas, se nem os pais acreditam no pirralho, se não o incentivam, se não cuidam dele, pouquíssimas chances ele terá de não ser medíocre.

Eu, que agora ando apaixonado _pois não só de cafajestagens pode viver o homem_, não quero nem pensar em dizer adeus. Contudo, mesmo no início do melhor dos relacionamentos, faço questão de ter em mente que o essencial é acreditar.

Quer coisa melhor que estar com alguém que acredita no amor? O amor é lindo, é verdade, mas precisa de investimento. Senão os beijos não têm graça...




Vai a prova de que o amor é livre, mas depende sempre da vontade de dois _recebi esse da menininha de olhos brilhantes. Diz ela que é de um grupo pernambucano chamado Cordel do Fogo Encantado:

Ai! Se Sêsse!...
(Zé da Luz)

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse...
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce!

E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!


Veja bem, é essa crença na vivacidade do amor que empurra a vela e põe o barco _com mar_ em disparada! A idéia é simples: se tiver fé na coisa, vá até o fim; se desacreditar, diga logo e suma. É só assim que a vida pode ser serena ou loucamente gostosa.

Eu, que faço o que digo, em todas as vezes que deixei de acreditar que chegaria à outra margem, abandonei o navio. Saltei, sem colete salva-vidas, de embarcações que adorava de paixão. E, como pode perceber, ainda não morri. Elas também passam bem, obrigado.

Conselho de hoje:
Quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade.

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