quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Como sobreviver aos novos tempos

Hoje o orkut me manda dar parabéns a um amigo que está morto desde janeiro do ano passado. Na página dele, além de pessoas bizarras e desconhecidas que fazem piadinhas e deixam scraps com dizeres de alto nível, o que mais me impressiona é que tem gente conhecida _mas não menos bizarra_ que escreve para ele mensagens do tipo "onde quer você que esteja".

Há uma consciência _bizarra_ de que, quando o sujeito morre, não pode receber carta, mas, talvez, possa acessar a web de vez em quando. Se assim for, lá encontrará coisas como "Cara, vai com Deus", "Nem sei o que dizer, estou chocada" ou "É uma grande perda".

Não se trata de discutir se há vida após a morte. Mas eu até me arrisco a dizer que uma coisa é certa: internet, depois da morte, não tem.

Ou então, vai saber, a grande rede pode ter criado uma nova questão existencial!

- Ei, você acredita em blog depois da morte?

- Ai, em blog, não. Só em e-mail. Sigo a linha mais ortodoxa.

Ou ainda:

- Sou Testemunha de Java, não posso compartilhar arquivos. Minha religião não permite essas misturas nem em vida.

O pior é que o coitado morreu e não pode apagar os scraps de desafetos e engraçadinhos. Eles vão ficar ali, para sempre, até que o próprio orkut se dê conta de que se transformou numa versão superprática de centro espírita. Você entra, envia sua mensagem para o morto de sua escolha, lava a roupa suja e fica com a consciência brilhando de limpa:

"Cara, desculpe aquela vez em que comi sua mulher. É que eu estava bêbado, e ela era muito gostosa. Estou contando isso agora porque não quero que fique essa mancha na nossa amizade."

O cidadão de bem morre e pode virar corno sem nem saber. Bom, todo mundo vai saber, menos ele _a experiência mostra que até pode haver acesso banda larga no Céu, mas o sistema ainda não permite apagar scraps. Fico pensando no cara lá, ao lado de São Pedro, sem conseguir apagar os scraps indesejados, soltando um belo de um palavrão (será que deixam falar palavrão no Céu?). Enquanto isso, na tela do micro, só aparece assim: "Bad, bad server. No donuts for you"

É preciso ter alguém de confiança com quem deixar a senha do orkut caso o pior aconteça. Esse é um problema novo, e os códigos ainda não dispõem sobre ele. "Se algo me acontecer, por favor, Fulano, não pense duas vezes antes de usar isso", e entrega um papelzinho com login e senha

Ainda não cheguei aos 30, mas me sinto velho. Essas coisas são demais pra mim. Não consigo lidar com certas hipocrisias com a mesma naturalidade de antes.

O que passa é que a velocidade dos tempos e das notícias ficou tão impressionante que não dá tempo de dar notícia de mais nada.

Ao menos três revelações bombásticas dos últimos tempos me fizeram rever conceitos, se é que não me deixaram deprimido:

1) Plutão não é mais planeta - Essa já virou clássica. Mas fico pensando em como ficam os modelos de Sistema Solar de isopor, como ficam as dicas para decorar os planetas, como fica toda essa cultura inútil que está aqui, guardada na minha cabeça. Como fica Disney e seu cachorro Pluto? "Não, Pluto, você não é mais personagem. Precisa deixar o parque". É injusto. Mas, queridão, quem te falou que o mundo é justo?

2) Fidel Castro usa Adidas - Tá, Adidas é legal. O ditador adoece e, na cama, na primeira foto pra provar que está vivo, aparece lá com o mesmo conjuntinho que seu avô usava, que seu pai usava, que sempre foi coisa de velho e que, por alguma razão que a própria razão desconhece, de uns anos pra cá virou cool e subiu de preço. Fidel de Adidas me parece contra-senso de primeira. A empresa é de origem alemã, como Marx, mas representa as grandes corporações internacionais, o capitalismo, o poder das marcas. Tá, poderia ser pior. Poderia ser a Nike. Mas aí já seria demais. Mas, queridão, quem disse que ia ser fácil entender o mundo?

3) Bin Laden guardava uma paixão (tinha um puta tesão reprimido) pela Whitney Houston. Esse, meu amigo, é o recorde. Bin Laden, o terrorista, o cara mau, o inimigo do sonho americano, também se seduz por uma bela morena. E daí se ela está decadente? E daí que é norte-americana? E daí que canta em inglês? Fico imaginando o barbudão lá, escondido, escutando um milhão de vezes a trilha de "O Guarda-costas", sonhando em ser o Kevin Costner. Mas, queridão, quem é que nunca fez uma bobagem tremenda por uma mulher?

É preciso aprender com o papelão do Bin Laden. Depois dessa, só o tifo mesmo para salvar o sujeito! Por tesão, o cara mais procurado do mundo se rendeu aos encantos do imperialismo ianque. Antes das crenças, antes dos princípios, antes do dinheiro, antes de tudo, vem o desejo.

Como diz um primo, se não existisse buceta, ninguém iria trabalhar todo dia de manhã. O sexo, por mais evoluídos que tentemos parecer, é o fim de tudo. Tá bom, a coisa dita assim, na lata, é um pouco chocante, um pouco triste e depressiva, mas é a mais pura verdade. Somos porcos babões. E, porque queremos sexo, é muito fácil nos fazer de gato e sapato.

Eu também adoro poesia, acredito no amor e ainda, que piada, acho que é possível mudar o mundo, fazer alguma coisa, sei lá, construir algo para a posteridade.

Mas, no fundo, a natureza grita por dentro e mostra que a civilização é só uma farsa, um teatro que montamos para fingir que somos superevoluídos. No fundo, o cara só sai todo dia para trabalhar para ter um bom salário, comprar um carro e enchê-lo de beldades _ou, vai, da beldade certa. A gente pode até tentar lutar contra tudo isso, mas, com o tempo, percebe que é assim. Esse é o resumo da vida de um homem. Qualquer outra coisa é desvio de rota.

Para nós, homens normais, cafajestes ou não, o exemplo do saudita é uma redenção. Não há como resistir. Se acontece até com o Bin Laden, pode acontecer numa boa com você.

De uma maneira insana, o terrorista se converte em Salvador. Tá aí um bom conselho. Por que voce não se levanta da cadeira agora e vai fundar uma igreja para venerar Bin Laden como o libertador dos homens? Se até o Maradona é Deus para uma igreja de fanáticos na Argentina (sério, existe a Igreja Maradoniana), por que esse preconceito contra o Bin Laden? Não dá pra negar que o cara foi responsável por feitos grandiosos. E, além do mais, poderia ser uma religião moderna, que acreditasse em internet depois da morte, sobretudo depois da morte.

Mas pense pelo lado bom, essa é a maior vantagem dos dias de hoje, dessa loucura que é acordar todo dia, ir trabalhar, encontrar a caixa de e-mails cheia de spam e o orkut cheio de mensagens coloridas de gente que você nunca viu. Esse tipo de redenção, proporcionado pelo que há de mais bizarro, não aconteceria nunca nos tempos em que Plutão era planeta.

Bizarro. Essa palavra é mesmo muito boa.

Conselho de hoje:
Lutemos, mas só pelo direito ao nosso estranho amor.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Como abandonar um blog (ou assemelhado)

Sim, quem tem sabe. Um blog não serve a um cafajeste; cafajestes não lêem blogs. Cafajestes nem sequer lêem. Eu _sabem todos que já leram duas linhas deste blog_ não sou cafajeste. Bom, sou, mas em parte; exatamente na parte em que não sou bonzinho. Nessa elástica porção de mim, sou cafajestíssimo. Eu diria até canalha.

Volto a escrever neste blog depois de abandoná-lo por longo tempo. Mas não foi só a ele que abandonei. Foi a mim mesmo, por inteiro.

Mergulhei de tal maneira no trabalho enlouquecedor da Redação que me esqueci do resto. Minha ausência no blog é a ausência de mim mesmo em cada dia que vivo.

Abandonar um blog, meu caro, é fácil. Basta começar a sentir uma preguicinha de escrever. Não dá pra saber ao certo se primeiro vem a preguiça e depois o resto ou se primeiro vem tudo mais, e o resto é justamente a preguiça de escrever.

O fato é que basta deixar de fazer a barba um dia para desencadear o processo. Deixar de fazer a barba é o primeiro passo para abandonar uma mulher, um emprego ou até um blog que você ama. Ou então é todo esse processo que leva a um desejo incontrolável de não fazer a barba.

Estou aqui, um pouco mais velho, um pouco mais barbado, um pouco (muito) desiludido com a carreira jornalística.

Jornalista é como mulher de malandro. Todo dia te pisam, te matam um pouquinho, te batem e te negam carinhos. Todo dia gritam com você. Todo dia reclamam do seu tempero. Mas a comida você continua a entregar todos os dias, quentinha, na hora certa. E nunca diz chega. Nunca vai embora. Você não consegue, pois ama. Ama demais. Precisa do MADA, aquele da novela; pena não ser mulher.

Amor bandido esse pela pauta. Incontrolável. Intenso. Canalha.

Diante da impossibilidade de mudança, conclusões se fazem necessárias:

1) Para abandonar um blog (ou um amor, ou um emprego, ou...), deixe de fazer a barba;

2) Para não fazer a barba, desfaça-se de gilletes, barbeadores, navalhas, canivetes e assemelhados;

3) Para se desfazer de tudo que corta (e mata), assegure-se de que não deseja se matar com objeto perfuro-cortante;

4) Para se certificar de que não quer morrer assim, convença a si mesmo de que não deseja morrer tão cedo;

5) Para se convencer de que não quer morrer, não pense duas vezes. Corra ao espelho. Vai logo, olhe-se de novo, demoradamente. Perceba o seu próprio rosto, cada detalhe, cada pelinho. E diga em voz alta: "Eu até que fico muito bem de barba!"

Conselho de hoje:
Quem sabe esse lance vai virar um romance.

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Como ser palhaço

Tenho uma amiga que namorou um palhaço. E o sujeito não era nem babaca, era só palhaço. Nariz vermelho, sapato comprido, gola sobe-e-desce. Palhaço de circo.

No começo, ela achava tudo muito engraçado. Dizia aos amigos: "É, ele é palhaço." E ria, ria, ria de si mesma. Era engraçado ter um namorado palhaço.

Depois, nas mesas de bar, passou a ser chato explicar sempre a mesma história. Alguém perguntava: "E você, Fulano, o que faz da vida?" O rapaz respondia: "Eu sou palhaço!". Riso geral, e o primeiro insistia: "Não, eu tô falando sério. O que você faz?" E o namorado, de novo: "Eu sou palhaço!". Gargalhada geral. Que pândego! Devia ser economista e tal e ficava inventando história... "Ah, não? É palhaço mesmo, desses de circo?"

Decepção geral. Justamente porque o sujeito era palhaço de verdade é que a situação perdia toda a graça. E o rapaz contava que era uma tradição em sua família: pai palhaço, avô palhaço, todo mundo palhaço. Os constrangidos, os que tinham rolado de rir da honrada profissão, acabavam sempre descobrindo dores de cabeça fortíssimas ou até massas de bolo esquecidas no forno. "Ah, eu já vou indo, preciso tirar o papai da forca."

Pois, sim, a moça passou a prevenir os amigos nas mesas de bar. O namorado ia ao banheiro, e ela aproveitava a deixa: "Gente, por favor, ele é palhaço... É, desses de circo. Pelo amor de Deus, não perguntem nada, OK?" Mas sempre havia um desavisado, um paquera de alguém que chegava mais tarde, um amigo no lado oposto da mesa e...

- E você, Fulano, que é que você faz?

Só sobravam lamúrias. E o maior dos lamentos era justamente o de que apenas ela se importava! Para o namorado, tudo era tranqüilo _ele era o palhaço! Passara a vida inteira explicando, "sim, desses de circo", tirava tudo aquilo de letra e ainda fazia piada. Já para a moça, não, era duro. Palhaçada tinha limite! Coitada.

Decidiu, depois de muito tempo, assistir ao namorado em ação, na arena, vestido de palhaço. No circo, percebeu como ele era ótimo, como tinha talento. Lá estava ele, cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço! E a moça gostou. Encantou-se pelo modo como as crianças se encantavam por ele, ele mesmo, seu namorado, o palhaço de circo!

Mas outro dia, em uma mesa de bar, ela me revelou o desfecho da trama, da comédia tragicômica que foi seu enlace com o discípulo do Carequinha.

"Perdi o tesão", disse ela. "Nunca mais consegui transar com ele. Pensava no nariz vermelho, naquela gola, naquele sapato enorme. Não rolou mais nada."

Triste. Tristíssimo, meu caro amigo. E a história serve pra todo mundo. Aquilo que encanta pode ser justamente o que bota pra correr o amor.

Gaiatice e cafajestagem têm limite. Pode ser que, no início, a mulher até ache graça, que ache bonitinho o seu lado palhaço. Mas, uma hora ou outra, ela acorda e te troca por outro.

Para mais detalhes sobre palhaçadas, recomendo a leitura do site Homem é Tudo Palhaço.

O pobre do palhaço da história _que terminou chorando, como no quadro clássico (e brega)_ não teve culpa de nada. Mas esse não é o seu caso, certo? Todo mundo sabe quando erra.

Eu já terminei namoro por telefone, já sumi sem deixar rastro, já fiquei com duas ao mesmo tempo. Mas o fato é que, no fundo, sou um romântico inveterado.

E quem nunca foi palhaço que atire a primeira lágrima.





Conselho de hoje:
Na tua lista de golpista tem um bobo a mais.

segunda-feira, 1 de março de 2004

Como saber quando visitar este site

Se você está quase desistindo de visitar este site porque ele nunca é atualizado, seus problemas acabaram.

Então quer dizer que o blog terá sempre textos novos? Não, claro que não.

Isso significa apenas que você, caso queira, poderá ser avisado sempre que uma bobagem nova aparecer por aqui.

Para isso, mande um e-mail para o Cafajeste, dizendo SIM, EU QUERO SER AVISADO.

Se quiser, pode enviar um e-mail para o mesmo endereço simplesmente me mandando à merda. Com toda a educação, é claro.

Conselho de hoje:
Todo dia é o mesmo dia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

Como viver melhor

Talvez bastante influenciado pelo último post, que tem data de agosto de 2003, fiquei muitos meses sem escrever aqui.

O mais interessante é que não morri, não me casei, não encontrei um grande amor e não fugi para a Polinésia Francesa. Continuo aqui, eu mesmo, sem graça de tudo.

E trago hoje conselhos simples e bestas sobre como fazer a vida melhor.

Não tenha um blog. Não releia o que escreve.

Não prometa um presente. Não jure, não abjure.

Não minta. Não se engane.

Não diga nada de que vá se arrepender. Não diga nada sem pensar.

Não duvide de sua capacidade de ser feliz.

Não enrole para cumprir as tarefas do trabalho.

Não fique emburrado. Não teime. Não discuta.

Não coma gorduras. Não coma pão, não falte à academia.

Não pense que é o pior dos homens.

Não seja chato. Não seja bobo. Não se incomode.

Não brinque com o que é sério. Não beije sem amor.

Não. Vou continuar fazendo tudo isso.


Conselho de hoje:

Nem Deus sabe o motivo.

terça-feira, 19 de agosto de 2003

Como se despedir

Despedir-se sem tremer os joelhos e sem derramar um oceano de lágrimas é tarefa dura quando existe sentimento de verdade.

Seja um mês ou um ano, uma semana ou um período indeterminado, simplesmente acenar e dizer tchau, quando a ausência será sofrida e cotidiana, sentida em cada dia, em cada manhã, em cada refeição e em cada filme da tv a cabo, é impossível.
Ainda mais para quem prega que homens não choram, não se emocionam e não se deixam levar por toda a baboseira sentimental.

Eu, que choro, me emociono e me deixo _sim!_ levar por toda a baboseira sentimental, ainda considero dificílimo me despedir.

Se você é dos meus, e já aprendeu que problema não há em demonstrar sentimentos, sabe que isso não facilita as despedidas, apesar de tornar a vida mais verdadeira.

Qual é, então, a melhor maneira de evitar o sofrimento?

Será despedir-se aos poucos? Será fazer tudo no último minuto? Será fingir que nada acontece, que o dia seguinte será como o anterior? Será viver mais intensamente os momentos restantes e aproveitar cada segundo antes da partida?

Não sei. Caro amigo, não sei mesmo o que fazer.

Penso nisso todos os dias e ainda não tenho resposta.

Está certo que o que causa a despedida é uma boa notícia, motivo de orgulho e festa, mas, no fundo, o que fica é um pouco de tudo: mistura de alegria e desgosto.

Não morreu ninguém. Aliás, morreu um montão de gente, inclusive o Roberto Marinho, mas isso pouco importa.

Não importa a hora de ir ao trabalho, não importa o sono, não importa o atraso e não importa o compromisso. Já não há compromissos porque o tempo se acaba. Falta pouco. Logo ela vai, antes que tudo tenha sido dito e esclarecido.

Com ela, pelos próximos seis meses (e agora uns dizem "só isso?" e outros "tanto assim?"), vão todas as chances de definição. Com ela, vão alguns medos e declarações de amor engasgadas e não-realizadas. Com ela, vai um pouco da minha história em São Paulo, do que aprendi a ser, dos risos, dos edredons (sim, eu comprei o meu edredon, que a cidade me devia!), das pipoquinhas, das multas na locadora, dos copos d´água e dos casamentos argentinos.

E, acredite, parece incompreensível, mas tudo isso se resume em uma lágrima que escorre dos olhos e já cai dentro da boca, deixando o salgado na língua.

Hoje, tudo que não foi dito se transforma em chorinho besta. Mi Mi Mi. Um choro que, sozinho, se alimenta, e chora de novo, pra dentro do corpo, de um jeito que parece que só há uma lágrima e que é ela, a mesma gota, que desce toda hora dos olhos, escorre pelo rosto, encontra os lábios e a língua, mistura-se na saliva e, de alguma maneira desconhecida pela ciência, retorna aos olhos, aos velhos canais lacrimais, e retoma sua função, eternamente na cadência de lágrima.

E tudo o que deveria ser dito, não é. Porque o melhor e o mais importante agora é fechar os olhos para curtir o abraço, o beijo. São seis meses. Seis meses. Seis meses de um medo de que depois deles tudo seja diferente, que não dê mais para voltar, para ser como antes. Medo de mudar e querer outras coisas, medo de que ela mude e queira outras coisas.

Há, meu amigo, um turbilhão de coisas e pessoas dizendo que isso não pode e nem deve dar certo. Há quem faça torcida para que tudo se acabe antes mesmo de começar direito.

Mas, seguindo o exemplo da história que vivo com essa menininha, toda ao contrário _primeiro o morar junto e a divisão das contas, depois a intimidade e, por último, o beijo_, algo me diz que o melhor é inverter a lógica.

Não se despedir, talvez seja essa a saída.

Dizer ciao, como os italianos, para depois ficar na dúvida se é começo ou fim, despedida ou cumprimento.

Conselho de hoje:
Corra e olhe o céu, que o sol vem trazendo bom dia.

quinta-feira, 12 de junho de 2003

Como ser solteiro

É claro que você já deve saber qual é o conselho do Cafajeste. O melhor jeito de ser solteiro é gostar de ser solteiro _tirar do estado civil o que ele tem de mais produtivo. Mas isso não significa que estar solteiro seja a melhor coisa no mundo.

Estou solteiro. E, cafajeste ou não, lá no fundinho acabo contaminado por toda essa coisa do marketing do Dia dos Namorados. Fico olhando as namoradas e as solteiras, vendo como elas reagem ao dia fatídico. Vejo nelas minha dor (de macho, escondida dentro do peito) e minha alegria por estar solteiro.

E é por essas e outras (dúvidas e mulheres), que hoje me pergunto: por que é que somos assim? Se estamos solteiros, queremos namorar. Se estamos namorando, queremos a farra, a orgia, a perversão e a putaria das noitadas de solteirice.

Se solteiros, no entanto, não fazemos tantas farras. Moças, não se iludam: as maiores farras são as dos comprometidos!

Solteirões beijam belas moças, mas não fazem com elas as loucuras que sonham (ou praticam) quando estão casados.

Aliança no dedo, e o sujeito pensa. "Sou novo. Só comi 402 mulheres até hoje. A vida está passando por cima de mim, estou perdendo os melhores anos da minha vida." Para dizer isso, pode ter 17, 25, 34, 46, 58... a idade não importa.

Na verdade, nem é o número de mulheres que incomoda. O que incomoda é o tempo _ele é a chave, o problema importante! O problema que mora em nossas cabeças, aquele que habilmente nos faz crer que a felicidade nunca está conosco, mas na boléia do vizinho.

Sabem todos que não defendo amores naufragados. Sou a favor dos finalmentes _sempre que a confiança desaparece ou que já não se acredita mais no amor.

Hoje, no entanto, por escolhas que fiz e deixei de fazer e também em parte por uma contingência do destino, não tenho com quem dividir os R$ 0,07 da TIM, nem os R$ 0,25 da Telefônica. Às vezes, admito, quero estar namorando simplesmente para aproveitar as promoções. Em outros momentos, só quero uma namorada para ter com quem ir a um clube de swing.

Hoje, não dou presente, mas também não ganho.

Pelo menos não hei de sorrir falsamente ao abrir o pacote e achar uma calça bege _com direito a "Bege não, meu bem, cru!".

Hoje _só hoje, como fazem os anônimos da bebida_ reclamo. Mas hoje _só hoje_ também me sinto um pouco aliviado. Por só responder por mim mesmo, por ser livre. Livre para sair agora do trabalho e ir para casa para um vídeo com pipocas.

E, assim é a vida, passa-se o tempo e tal dia aparece uma mocinha interessante, que logo vira a mulher perfeita.

Aí, quando está lá a moça, na minha frente, olhos fixos, quem disse que quero saber de outra coisa?

No auge do amor, só o que importa é ela _e danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho, o Chico Buarque e todos os orixás!

Só o que interessa é o amor, e espaço não há para promoções e delírios do marketing.

E é por essas e outras que nunca fui a um clube de swing.

Conselho de hoje:
Viver é melhor que sonhar.

sábado, 24 de maio de 2003

Como se arrepender

Cafajeste que é cafajeste não se arrepende, por mais que faça o que não deve. Mas, como o objetivo deste site é ajudar os cafajestes de plantão a serem mais humanos e, quem sabe, mais felizes, vai aqui mais um conselho.

Arrependei-vos, ó, cafas, de todo o mal que fizerdes ao mundo!

Do mal que ainda está na mente e do que ali nunca esteve. Do mal praticado em sã consciência, em consciência insana e em completa inconsciência.

Não, não me converti a nenhuma religião estranha, mesmo porque estranhas são nossas cabeças, capazes de encher de adjetivos o que não conhecemos de perto.

Não falo de arrependimento religioso, mas de um arrependimento, digamos, jurídico.

Quem sabe um pouco de Direito Penal já deve ter ouvido falar de "arrependimento eficaz".

Está aí um conceito interessante: você pode até dar veneno a alguém, desde que, em seguida, dê também o antídoto.

Existe o risco, é verdade, de o antídoto não fazer efeito, e a pessoa morrer. Se isso ocorre, quem deu o veneno é culpado, mesmo que tenha dado o antídoto ou mesmo que a vítima tenha preferido morrer, recusando-se a tomá-lo.

OK, mas o mais divertido é que, se a pessoa não morre, não existe punição.

O que quero dizer é que a boa medida de uma cafajestagem é a do veneno que vem pouco antes de seu antídoto.

O importante é estar atento para corrigir a coisa a tempo. Mas não se esqueça de que há um, digamos, "ponto de inevitabilidade", como acontece na _eu e minhas comparações_ ejaculação. Há um limite que, se ultrapassado, não autoriza o retorno.

Depois, até é possível se arrepender, mas esse arrependimento não lhe será tão benéfico. Restará a tarefa de juntar os caquinhos.

A idéia é se arrepender sempre, mas de forma eficaz, sem dar espaço para o arrependimento posterior, que só produz sofrimento. Aí está o jeito correto de se arrepender.

Se fez, bandidão, assuma e pronto! Você quis, teve vontade, podia até não saber bem o que estava fazendo, pode não ter sido planejado, mas você já fez. Não se martirize.

Estive em Belo Horizonte há alguns dias e descobri que a nova moda entre as crianças que pedem esmolas no sinal (farol, para os paulistas) é não pedir nada _pelo menos não diretamente. Não imagina como? Eles cantam, meu caro. Chegam à janela do seu carro e cantam:

"Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz..."

O sujeito se enche de culpa e entrega logo R$ 10 para o moleque.

E de que adianta esmola? Melhor dar comida, dinheiro não tem destino certo, cai na mão de quem explora a criança, essa loucura toda que a gente já sabe.

Mas, se o sujeito, cafa ou não, enche-se de culpa, não faz mais que a obrigação!

Ou vai dizer que a culpa não é um pouquinho sua, na verdade um belo tanto sua e, em última análise, inteiramente sua?

A culpa é indivisível, meu caro. Quem matou não matou "menos" porque teve um comparsa.

A culpa é de cada um de nós, por inteiro.

Portanto, vamos logo ao arrependimento. Com eficácia.

Conselho de hoje:
Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio.

sexta-feira, 25 de abril de 2003

Como conversar com a Luana
(conselho pedido por Fábio)

Sim, meu amigo. Eu falei com ela. Toquei, dei beijinho. Não foi na boca, que não estou com essa bola toda, mas dei beijinho.

Não tem jeito. Homem diante de mulher bonita fica mesmo um pouco idiota. Bom, fica sempre muito idiota.

Eu, feito louco, alucinado e criança, entrevistei um dia desses a Luana. É, a Piovani.

A moça foi uma simpatia só, apesar de certos ares de estrela. Tudo bem, isso a gente releva.

Conto _em mais um momento adolescente_ que ela exibia um belo decote, em camiseta dessas com alças fininhas. Tesão.

Não estava produzida, estava loura em excesso por causa da personagem que está fazendo no teatro _Alice_ e mesmo assim estava linda. Palmas pra ela. A galera vibra.

No mais, aproveito o momento para filosofar sobre como falar com uma mulher bonita. Perguntinha das mais difíceis enfrentadas pelo Cafajeste.

Falar com uma mulher bonita exige, tenho concluído isso com o tempo, uma preparação psicológica. Tudo é uma questão de autoconfiança.

Falar com uma mulher muito bonita, no entanto, exige do sujeito bem mais do que isso. É preciso sangue de barata e muita cara-de-pau.

Você sabe do que eu estou falando. Quantos caras você conhece que nunca se atreveram a dirigir a palavra à mais bonita da festa, ou da classe, ou do bairro, ou do finalzinho da festa, quando até a maior das mocréias pode ficar linda? É tipo aquela propaganda da Pepsi. Era da Pepsi, não era?

Se você é do tipo que treme nas bases, que mija nas calças, que gagueja assim que dá de cara com a pequena, este conselho é para você.

O que você tem a perder falando com ela? Se para você ela é algo assim tão maravilhoso, que mal há em puxar uma conversinha?

OK, muitas delas podem esnobar você. Mas e daí? No momento em que ela te esnoba, não é você que é desprezado, é ela quem automaticamente fica bem menos bonita e inteligente do que era antes.

Entende? Se ela não quer nem ouvir o que você tem a dizer, melhor olhar direito, pois posso garantir que ela não é tão bonita assim.

Olhe bem, compare as medidas. Lembre-se da Luana. É, a Piovani. Pense nela e veja se a sua musa ainda se equilibra no pedestal.

No meu caso, me lembro sempre da Luana. Ou da Piovani ou da minha mãe, que tem o mesmo nome. Tudo depende da situação.

Lembrar da minha mãe, com quem, confesso, também não é muito fácil conversar, ajuda a ter em mente que só a melhor das mulheres merece o filhinho da mamãe.

E todo cafajeste que se preze, no fundo, é o filhinho da mamãe.

Conselho de hoje:
Na vida só resta seguir um risco, um passo, um gesto rio afora.

terça-feira, 15 de abril de 2003

Como viver em São Paulo

O caminho para São Paulo é apagar todas as estrelas do céu e acendê-las de novo no chão.

Foi assim que vim pra cá, sem saber o que seria de mim. Ainda não sei.

Se você pensa em largar Minas, deixar a Bahia, sair de Canindé, no Ceará, e vir para São Paulo, esteja preparado para encontrar muito do novo e muito do mesmo. Todo dia haverá surpresa; todo dia haverá tédio _tudo isso ao mesmo tempo, no mesmo mergulho e no mesmo flash.





São Paulo me deu um amor que não deu certo, toalhas de mesa e a primeira melancia que comprei com meu dinheiro. São Paulo me deu colegas de apartamento, amigos toscos e apaixonados, noites sem dormir, beijos no sofá da sala.

São Paulo me deu "Ronda" cantada por Vanzolini, taxa do lixo e a promessa de um novo amor. São Paulo me deu choro engasgado, ordem a ser cumprida sem choro nem vela e choro de tanto riso. Por fim, São Paulo me deu garoa fina, chuva de verão com hora marcada e tempestade que faz até desabar barraco.

Em um desabamento, coisas de São Paulo, encontrei um haicai em uma página de livro, bem no meio da lama e do que sobrou da casa de um pintor que perdeu sete parentes. Foram soterrados após uma forte chuva.

"Que cheiro cheiroso de terra molhada quando a chuva chuvisca." Era o haicai, e o sol estava no alto do céu.

Em um hotel no bairro dos Jardins, na mesma São Paulo, conheci um pianista de 76 anos que me disse que só há dez anos descobriu sua verdadeira vocação. Era compor e tocar canções de todo tipo!

Eu estava parado na porta do bar do hotel, cansado em um final de dia, quando ele me perguntou se eu tocava algum instrumento.

Disse que não, mas que ainda haveria de aprender. Ele sorriu e contou sua história.

Quando jovem, disse ele, queria ser escritor. "Mas nunca fui bom com as palavras, descobri que minha linguagem é a música." E tocou "Gente humilde" no piano.

Na saída, depois de cerca de meia hora de conversa, perguntei o seu nome.

"Tchaikovski", respondeu ele. Satisfeito com a resposta, peguei meu rumo.





São Paulo é isso tudo, haicai triste em dia de sol, canção triste em tarde feliz, sorriso largo e sorriso tenso. E pressa, mais do que tudo, mais do que todos, toda hora, não importa o destino, o caminho, o motivo.

Atrasado para o cinema, para o trabalho, atrasado para o próprio atraso, planejado na agenda de quem não quer perder compromissos, vivo o dia de hoje e só ele.

Ninguém disse que seria fácil, mas muita coisa me falta das promessas que me fiz. Está aí algo que não se deve fazer: promessas.

São Paulo ainda me deve um edredon. E, por mais que eu pense que a cidade tem comigo essa e outras dívidas por honrar, ela me olha com sorriso maroto. Para ela, estamos quites.

Conselho de hoje:
A mente apavora o que ainda não é mesmo velho.

quarta-feira, 9 de abril de 2003

Como não voltar sozinho para casa
(conselho pedido por William)

Uma bela maneira de não voltar para casa sozinho é, veja como é fácil, não voltar para casa. Para isso existem os postos de conveniência, as lanchonetes 24 horas, as academias de ginática que não fecham as portas.

Indo a lugares assim, você pode não acreditar, mas aumentam muito suas chances de encontrar uma pequena ao seu estilo.

Se você vai às festas, às baladas, à curtição, à night e a seja lá como você chama uma noite em que sai com os amigos, se tenta conversar com as mulheres e nunca dá certo e se já tentou a oração do conselho anterior e isso não funcionou, este conselho é exatamente para você.

Por que é que seu charme funciona tão bem no trabalho, nas conversas à luz do dia, mas à noite, quando as gatas são pardas, nada sai como você planejou?

OK, é isso que você quer saber?

SEUS PROBLEMAS ACABARAM.

Primeiro: Não faça planos. Saia de casa. Assim, simplesmente. Veja o mundo à sua volta. Observe os desígnios de Deus.

Segundo: Se todo o papo de desígnios de Deus não levar você a canto algum, não esmoreça.

Terceiro: Pense bem. Se você não faz planos, tudo que vem é lucro.

O conselho de Alberto Caeiro é ideal nesses casos: não pense. A única inocência é não pensar.

Meu caro, não fique assim, sozinho. Homem é artigo em falta hoje em dia. Coisa fina, não se compra mais em liquidação. Mulher tem de penar é muito para ter o seu.

Pense em você como um produto de luxo _só, por favor, não use a palavra glamour para se referir a si mesmo.

É chavão, mas a gente diz: te valoriza, rapá!

Esteja convencido de que sua missão no mundo é fazer as mulheres felizes _é isso o que elas querem, não é?

Leia o conselho "Como ser bonzinho", decore-o palavra por palavra. Até eu, confesso a você, tenho precisado dele como nunca. Decore-o.

Fazer uma mulher feliz não significa namorar, babar, rastejar-se, ameaçar se atirar da Torre de Pisa ou coisa parecida.

Aliás, quem disse que viajar não afasta problema? Esqueça a sabedoria das novelas da Globo. Se puder viajar, viaje. E, se você tem mesmo dinheiro para ir à Itália, vamos combinar que você não tem tantos problemas como diz que tem.

OK, Itália não vai dar agora. De fato, não está rolando nem Parati. Tudo bem, viajar não resolve problema nenhum, já diria a ricaça da novela.

Se elas estiverem querendo, dê a elas o que elas querem. É isso.

Surpreenda. Ria de si mesmo. Escute mais e fale menos.

E, cara, não fique nervoso ao conversar com as mulheres. Se durante o dia você vai bem, o que é que muda?

Das duas uma: ou você está errado de dia ou de noite. Se disser que à noite tudo naufraga porque você está interessado "em algo mais", esqueça. A vida é um flerte só, cara pálida. Por que é que de dia você não se interessa por ninguém?

E lembre-se: até assuntos como física quântica, florais de Bach ou orelhas de elefante podem ser românticos. Não há temas proibidos. O importante é não fazer força para agradar ou ser romântico. Agrade. Seja romântico.

Afinal, é assim que você é normalmente, certo?

Conselho de hoje:
Não tem nenhum engano nem mistério. É tudo só brincadeira e verdade.

quarta-feira, 2 de abril de 2003

Como rezar quando se está na seca

O conselho veio da boca de uma menina com seus seis ou sete anos e inspirou até o roteirista Jorge Furtado, na hora de adaptar para o teatro a história de "Alice no País das Maravilhas".

É fruto de uma deliciosa confusão, que serve muito bem como apelo de marmanjo que há tempo não vê mulher.


"Ave, Maria,
cheia de graça,
é ela menina
que vem e que passa,
num doce balanço
a caminho do mar"


E não se trata de heresia, é só cortesia.

Conselho de hoje:
Olha, está chovendo na roseira.

domingo, 23 de março de 2003

Como melhorar um beijo
(conselho pedido por Guilherme)

Cena 1. Ela é linda, tem um corpo que te excita muito e carinha de anjo e moleque ao mesmo tempo. Parece perfeita.

Cena 2. Você a convida para um a coisinha à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim.

Cena 3. Parado em frente à casa dela, você arranca o carro assim que a porta se abre. Não pode ser a mesma mulher.

Pausa para reflexão:

Por que algumas mulheres acham que mais é mais, que batom supervermelho é sempre supersexy, que cabelos presos (tipo aquelas esculturas assustadoras que a sua tia faz na cuca quando tem casamento) são irresistíveis e que frufrus são ótimos para evidenciar sua beleza?

De dia é Maria, de noite é dragão.

É como se a Maitê e o palhaço fossem a mesma pessoa. Antes e depois.





Cena 4. Agora a musa é outra. Você está em uma festa, maior balada e tal, quando vê uma mulher perfeita do outro lado da pista. Louraça.

Cena 5. Não, você não está bêbado. Ela é gostosa. Você sorri, ela também, passinho aqui, passinho lá. Três palavrinhas e um belo beijo. É o seu dia de sorte.

Cena 6. Cara, que gostosa. Mas... tem algo ali que parece não ser de verdade (não, leitor pessimista, a tragédia não é tanta, ela não é um traveco. Cafa que é cafa não faz esse tipo de confusão: gostosa é gostosa, bengudo é bengudo).

Cena 7. Louraça, cara, que bunda, e olho azul! Bom, olho azul assim meio de lente, né? Sabe essas lentes tipo festa rave? Pois é. Uma mulher boa daquele jeito, precisa de lente pra quê? Tá, pra fazer um estilo. OK.

Cena 8. Dia seguinte, replay da cena 2, e vocês se encontram outra vez. Tá lá a mulher de novo com o olho azul.

Cena 9. Você não se contém: "Por que uma menina como você insiste em usar lente azul? Você não precisa." Ela, testa franzida, responde: "Lente azul? Como assim?"

Cena 10. Você se mata. Afinal, ela era muito gata e ainda tinha olhos azuis.

É isso, meu caro. O dilema de hoje é dizer ou não dizer _e, se for dizer, como fazer isso com estilo. O Cafajeste responde: sinceridade sempre é bom, o segredo é o modo de falar (ou descobrir) as coisas.

No caso da falsa lente, um "adoro a cor dos seus olhos" poderia ser perfeito: na pior das hipóteses, vocês se casam e ela usará lentes até a morte. Pedir para ver fotos da família dela, além de supersimpático, ajudará a obter informações definitivas, mostrando de vez se a maldita cor azul vem de um gene recessivo ou de um oftalmologista.

E, é claro, um pouco de atenção também ajuda. Faça clima de "olhos nos olhos, quero ver o que você diz", enquanto pensa "vem cá, que eu quero ver se você usa lente, sua tosca".

De que adianta viver toda a vida com uma belezinha que é a maior baranga quando a noite vem? De que adianta viver para sempre em dúvida sobre a originalidade da menina dos olhos da menina?

Melhor dizer mesmo, mas com jeitinho.

Frases que podem ser úteis no caso da baranga (se ditas de dia, quando ela ainda está normal):

"Você fica linda de cabelos soltos"; "Mulher bonita não precisa nem de maquiagem"; "Você fica muito bem de preto"; "Os homens, em geral, preferem mulheres de cabelos compridos"; "Olha como fulana de tal está bonita" (essa com bastante jeito _se possível, elogiando uma mulher mais velha); "Vamos assim mesmo, mamãe é superinformal"; "Olha o presente que eu comprei pra você".

Agora, a maior das dicas! Quando ela estiver bem, de dia, morra de fazer elogios. À noite, boca-de-siri, silêncio sepulcral.

E, Deus do céu, se ela fizer a pergunta proibida?

Vocês saem e ela exagerou em tudo o que não tinha direito. E a bomba: "Estou bonita?"

MOMENTO DE PÂNICO

Como sair dessa?

Opção 1: corra.

Opção 2: diga a verdade e corra.

Opção 3: bote ela pra correr, que falta de desconfiômetro precisa ter limite.

Pois vamos ao mais sério dos temas.

Como, essa é a questão, melhorar um beijo.

Cena 11. Ela é linda, engraçada e tem uma pintinha (ou uma tatuagem) em um lugar secreto que você está louco para conhecer.

Cena 12. Rola o maior clima, vocês se olham, e o diretor grita: "É isso aí, gente, quero o maior chupão, hein!"

Cena 13. Beija eu, beija eu, beija eu, me beija. É... Não... Vamos ver se... Desse lado, então... Direita... Esquerda... Céu da boca...

PORRA!!!

Onde se meteu essa maldita língua?!

Pois é, meu caro, você tem um problemão.

Estou certo de que você está me acompanhando. O que você faz quando a moça é ótima, mas o beijo não funciona?

Não sabe? Vão aqui algumas sugestões.

Se o beijo não funciona, há três opções:

1) Você não sabe beijar;

2) Ela não sabe beijar;

3) É tudo uma questão de encaixe.

Bom, se você nunca teve problemas com seu beijo e já treinou bastante, podemos pular a primeira opção.

Se foi o primeiro beijo dela, há grande chance de que, um segundo antes de ser beijada, ela tenha dito algo como "eu nunca fiz isso" ou "eu não sei direito como é". Aí tudo bem, é só uma questão de prática.

Se ela não disse nada, você precisará de mais atenção da próxima vez.

EXPLICAÇÃO COM MOMENTO LÚDICO: É bom dizer que todo este conselho parte do pressuposto de que, gostando da moça, há algo que incomoda bastante, mas não a ponto de dar vontade de desistir. São casos em que você acha tudo ótimo, com a exceção de um pequeno detalhe. Pois roupa, cabelo, maquiagem são coisas que pouco nos interessam. A gente só repara mesmo quando está tudo errado. No caso do beijo _isso é sério_ já imaginou que castigo? É uma tristeza gostar de alguém, e o beijo ser ruim!!! Um minuto de silêncio e um de oração para os irmãos que passam por isso.

É preciso descobrir se ela não sabe beijar ou se o problema é o encaixe. Peço desculpas se, em alguns momentos, esse blog ficar parecido com uma Capricho masculina.

Certifique-se de ela está à vontade. "Estou achando que você está um pouco tensa. O que foi?"

O ambiente é adequado? A mãe dela, o ex, a vizinha fofoqueira estão no local? Ela parece nervosa? Sim? Oba, então é isso. Não?

Parece estar gostando do beijo? Sim? Então ela não faz idéia do que está fazendo. Não? O problema perdura.

Tá fazendo cara de nojo? Sim? Então provavelmente é o primeiro beijo (se ela tiver até uns 16 _ainda tem menina dessa idade que nunca beijou nos dias de hoje?). Não? Esforce-se e tente descobrir se ela está fingindo que gosta. Puxa, você já beijou um bom número de bocas e certamente é capaz disso. Se ela tiver mais de 20 e nunca tiver beijado (pois é, esse tipo também existe), aumenta a chance de ela querer fingir que está tudo ótimo.

Não está com cara de nojo e também não está gostando? OK, pode ser um problema de encaixe.

Uma saída é ASSUMIR TODA A CULPA, pedir desculpas e dizer que você está tenso e que por isso o beijo está meio atrapalhado. Legal, boa chance para ela dizer que está nervosa, com cãimbra, com cólica, com sede ou com qualquer outra coisa.

O caso é de língua desaparecida? Um "você pode me emprestar a sua língua?", se dito com charme, costuma funcionar.

Se o problema é que ela está muito afoita, e a língua dela parece mais sua do que dela, diga um "Calma, devagarzinho é mais gostoso". Tá bom, pode ser meio piegas, mas é verdade e não mata ninguém.

Se a questão é a falta de vácuo, aí a coisa é séria. Os dentes trombam, as tentativas cansam. A opção é sorrir e dizer que você gostou dela, mas que, por alguma razão, o beijo está "engraçado". Se ela já souber beijar de língua e só o que lhe restar for sonhar, ela concordará na hora ou responderá "Claro, você é um tosco!". Se não, poderá ficar chateada, achando que o problema é com ela. Ok, o problema é com ela, mas ela não precisa saber.

Se essa etapa for encarada de uma maneira saudável, todas as portas estarão abertas. Quer coisa melhor do que poder dizer quando algo não está bom? Seja o beijo, o sexo, o relacionamento...

Peço desculpas pela comparação, mas esse é um site para rapazes e não encontrei melhor exemplo. Dizer o que não está bom é como operação de fimose. Pode ser chato, mas traz infinitos benefícios.

Conselho de hoje:
A vida ainda vale o sorriso.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003

Como pedir conselhos

Caros amigos, esse é o início de um novo dia, de um novo tempo, que começou.

Meus problemas serão só meus (o que não me impede de contá-los a vocês), e os problemas de vocês serão de vocês _mas meus também.

Quer um conselho? Basta enviar um e-mail para este site. O resultado não é garantido, mas não custa tentar.

E há uma grande vantagem: quem não gostar do conselho pode reclamar e deixar um comentário desaforado!

Quem estiver mais animado pode deixar um conselho em vez de pedir, como fez o Rod, em seu comentário ao último conselho.

Ele disse: "se escrever curar dor de corno ou cotovelo, continue, mas do que adianta falar! Isso é problema seu! Se existisse remédio para isso eu também vendia". O problema não tem nada a ver com corno nem com cotovelo, mas o conselho foi anotado no caderninho do Cafajeste.

Alguns já usaram o recurso e pediram conselhos _a primeira resposta deve estar no site nos próximos dias.

O primeiro conselho encomendado será "Como melhorar um beijo", pedido por Guilherme.

Assim como há vários tipos de bode...









...há também vários tipos de conselho.

O do Cafajeste, quem sabe, pode ser o que servirá pra você. Um conselho meu pode até não servir pra mim, mas quem disse que não pode servir para o João, para o William, para o Gaudério ou para o Guilherme?

Bom, peça o conselho e depois analise. Pode ser que você descubra que o bode não é tão feio assim.

Conselho de hoje:
Chore essa saudade estrangulada. Fale, sem você não há mais nada.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2003

Como não dizer nada

Há momentos na vida de um homem em que é preciso respirar fundo e calar a boca. Se nada pode ser dito para alterar uma situação, melhor não gastar saliva.

Se o seu chefe não vai com a sua cara e quer demitir você, adianta dizer alguma coisa? Não, não adianta.

E VAI AQUI UM PRIMEIRO ESCLARECIMENTO: EU NÃO ESTOU DESEMPREGADO.

Mudei de função e agora estou brincando de outra coisa. Mas isso é problema meu.

Se você tem um compromisso, adianta pedir ao sequestrador-relâmpago _que pegou você na porta de casa e planeja um tour pelos bancos da cidade_ para voltar depois das 20h? Não, não adianta.

E VAI AQUI UM SEGUNDO ESCLARECIMENTO: EU NÃO FUI SEQUESTRADO.

Meu irmão foi e, graças a Deus, passa bem. Mas isso é problema da minha família.

Se a menina dos olhinhos brilhantes diz que acha melhor terminar tudo que existe entre você e ela, adianta discordar? Não, não adianta.

E VAI AQUI UM TERCEIRO ESCLARECIMENTO: EU ESTOU SOLTEIRO.

Terminamos, ela e eu, e não sei que rumos a minha vida e este blog irão tomar. E isso é um problema seu.

Quando digo "seu", quero dizer que, como leitor, você precisará decidir se quer continuar a ler o Cafajeste.

Essa decisão, no entanto, passa por outras duas questões:

1) Existem leitores desse site?

2) O site continuará a existir?

Quem quiser voltar ao primeiro conselho do Cafajeste descobrirá que ele foi criado por causa dela. É, ela, a menina, a dos olhos de farol, acho que você me entende.

Pois vamos às respostas:

1) Sim, existem leitores, muitos deles (e delas) formados por amigos da menininha do Moshi Moshi. Há também os meus amigos e familiares, há os desavisados, e até mesmo, acreditem ou não, leitores de países estranhos. Não são muitos, nenhum recorde, mas existe quem perca aqui o seu tempo. E, é claro, caso não haja mais ninguém, sempre haverá a Marininha, leitora constante e desconhecida. E, a quem interessar possa, de acordo com comentário no conselho anterior, a Marininha tem namorado.

2) Sim, insanamente o site continuará a existir. E, talvez, possa agora cumprir seu verdadeiro papel de falar sobre a alma masculina, buscando o ideal do bonzinho em parte. Não que eu não achasse divertido escrever conselhos apaixonados, mas não se pode ser perfeito em tudo.

Voltamos, pois, ao problema inicial: você, meu caro, continuará a visitar este endereço?

"Não, eu só gostava de acompanhar o romance em ambos os blogs", dirão alguns.

"Não, eu tenho mais o que fazer", afirmarão outros tantos.

"Sim, eu quero saber de tudo sobre ele", diria a minha mãe, caso tivesse alguma idéia do que é internet.

"Sim, vou continuar a visitar o Moshi Moshi. E só ele", sentenciarão os mais radicais.

Saiba, caro leitor, que este Cafajeste tem hoje o coração apertado. Saiba que terminar, gostando ou não, é sempre ruim e dolorido. Saiba que escrevo isso tendo a menininha a poucos passos e a uma distância enorme. Saiba que nos falamos todos os dias, que nos tratamos bem, que sorrimos, mas que estamos cá e lá, cada um no seu canto. E, sobre isso, já foi escrito o conselho "Como saber quando parar", absolutamente oportuno.

Saiba, caro amigo, que este blog não vai se tornar um espaço depressivo.

Saiba ainda que me basta uma visita ocasional, mesmo porque este site não é dos mais atualizados. Saiba que, para quem vier, haverá sempre um café, uns biscoitinhos e muito pão-de-queijo _coisa de mineiro, mesmo dos que vivem em São Paulo.

Saiba que basta um, um só leitor, um só interesse. E cá estará o Cafajeste, não menos romântico e afetuoso, não menos preparado para dizer verdades, carinhosas ou não, na sua cara. Aqui, neste mesmo espaço, logo embaixo da gravatinha borboleta, vai estar o mesmo Cafajeste, tentando seguir os seus próprios conselhos.

Ficar, voltar, sumir são decisões suas. E existe algo que eu possa dizer para mudar isso? Não, nada adianta. É uma opção sua, e espero que você seja bem feliz com ela.





Conselho de hoje:
Melhor sozinho. Até porque a solidão é uma velha amiga.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2003

Como copiar um post

Vá ao moshimoshi.blogspot.com, copie e cole. Prometa que só fará isso se tiver um blog e caso isso faça algum sentido para você.

Recuerdo de Buenos Aires
(onde esteve a menina dos olhinhos brilhantes)

"No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto"

(Jorge Luis Borges)






Conselho de hoje:
Corre atrás do amor de bar em bar, do céu de uma paixão ao inferno de um novo prazer.

terça-feira, 21 de janeiro de 2003

Como escrever um e-mail

Hoje não há muito o que explicar. É lindo e simples.

Leia e aprenda com o e-mail que recebi da menina dos olhinhos brilhantes:

"não sei a que horas você verá este e-mail
nem se você terá tempo para respondê-lo
ou se, de tão cansado, já não consiga respondê-lo do jeito que você acha certo
(não quero responder de um jeito mecânico _você disse, e eu concordo)
então deixa ser esse e-mail assim
só ele
sem resposta mesmo
até porque eu já fui pra casa
fui
mas deixei um pedacinho aqui contigo
é um beijo
que eu guardei aqui dentro
você não sentiu quando clicou no e-mail?
ele voou e pousou no teu rosto
bem devagarzinho
um beijo de boa-noite, de bons sonhos,
de bom-dia para amanhã
:)
mil beijos, na verdade

eu"


No mais, sem mais. Tudo que é perfeito é assim: esconde as palavras da boca.

Conselho de hoje:
Deus fará absurdos contanto que a vida seja assim.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2003

Como fazer o amor dar certo

Como fazer o amor dar certo é talvez uma das mais antigas perguntas dos que se unem não para eliminar problemas bancários, mas para adquirir problemas sentimentais.

Vai aqui uma verdade: antes ter problemas sentimentais, já que isso implica ter sentimentos, o que não deixa de ser um bom começo.

Só quem tem amor pode padecer com problemas relacionados a ele. Então, se você tem esse tipo de problema, alegre-se. Você faz parte da fatia privilegiada da população que tem um amor. Você pode acordar, olhar-se no espelho todos os dia e dizer: eu tenho um amor! Pode parecer pouco, seu relacionamento pode não estar em uma ótima fase, mas acredite: melhor com amor do que sem ele.

Após o último conselho, que a muitos pareceu pessimista, vão alguns esclarecimentos:

1) Não, eu não terminei um namoro;

2) Não, eu não estou desiludido com a vida, muito pelo contrário;

3) Sim, vou muito bem, obrigado.

Após esses breves esclarecimentos, vamos ao conselho de como fazer o amor dar certo. Não é difícil.

Foi o que me disse outro dia a dona Olga, 83 anos, casada com um saudável senhor de 85.

"Vou te dizer qual o segredo do amor eterno", disse ela.

Abri os ouvidos. Ela continuou.

"Você só pense em satisfazer as vontades dela. Ela só pense em satisfazer as suas vontades. Assim, não fica ninguém sem amor, nem vontade sem pensamento."





Assim. Simples. Com toda a experiência de dona Olga, que aos 22 anos teve uma paralisia facial e, um a um, viu todos os seus dentes serem arrancados.

Com toda a experiência de dona Olga, que não anda mais e tira uma fotografia com todas as pessoas _eu disse TODAS as pessoas_ que a visitam. Fotos reunidas em um álbum que ela mostra às visitas: os familiares, o médico, o moço da farmácia que foi lá aplicar uma injeção, a dentista que atende em casa, o entregador de flores, o moleque de recados, enfim, todos.

Pois é isso, meu caro, o conselho de hoje é o de dona Olga, que faz borboletinhas de crochê e as transforma em ímãs de geladeira. Cada um que a visita deixa uma foto e leva uma borboletinha.

Assim é o mundo: em cada um deixamos uma lembrança; de cada um levamos um pouco de vida.

Conselho de hoje:
Não há nada a lamentar. Ficou tudo no lugar.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2003

Como é possível amar e o amor não dar certo

Quem já amou sabe: amor não garante nada. Não garante carinho, nem atenção, nem felicidade. O amor é lindo, poético, gostoso e surpreendente; mas não é nada além de amor.

E como "nada além"? Precisa de algo mais? Precisa.

Descubro, caro amigo, que mesmo quem ama pode fazer sofrer. É possível amar com tal zelo e sempre e tanto, que o objeto de amor termina incomodado. É possível amar de um jeito tanto, que, desse tanto amar, pode nascer o desamor.

Por que há sempre quem pense que é pouco cuidado quando merece todo os carinhos? E também há quem pense que não errou quando errou feio, por que será? Há o que vê o erro onde ele não existe, nunca houve e nem haveria porque o amor é maior do que tudo. E há ainda o que se deixa possuir pelo medo de errar e, assim, erra, todos os dias, em cada frase, em cada respiração, de forma que, quanto mais ama, mais erra.

O amor, meu caro, é castigado pela rotina. O amor passa, então, a materializar-se em tão poucas oportunidades, que sofrem os corações dos amantes. Apertados de paixão, passam a ferir um ao outro com a certeza de que a culpa é alheia.

E sabe do que mais? A culpa é dos dois, dos dois que se amam e nunca podem, nunca têm tempo. Do detalhe que não é detalhe e passa despercebido nascem todos os problemas que põem fim ao amor.

Por isso, aniversário esquecido, incômodo escondido, e-mail não respondido, beijo não correspondido, tudo isso faz o amor morrer todos os dias. E, na pressa de amar, no amar depressa, os que se amam sequer percebem o que se passa.

É sabido que do amor mais quente ou possessivo ao mais generoso ou desprendido, há uma enorme gradação de sentimentos e ritmos cardíacos.

Se primeiro ama-se porque é novidade, depois, justamente porque não é e continua a surpreender. Ama-se porque é notório e porque ninguém sabe. Ama-se com medo, com raiva e dúvida, e é possível amar com ternura pedinte ou pedante. Amar com abuso, sem jeito e com pressa, amar dolorido, calado, no escuro, amar até no banco dos réus!

Por fim, amar e simplesmente amar, porque talvez toda a graça esteja na arte pela arte, no amor pelo amor, e o resto que se exploda.

Vai-se ver, lá está a mesma essência! Porque por mais que se ame assim ou assado, ao avesso ou de ponta cabeça, ama-se _e é isso que importa.

Mas o amor, seja ele de uma ou de outra espécie, precisa ser cultivado feito plantinha frágil. Como rosas e margaridas, como violetas e amarílis, o amor é uma florzinha que teima em viver, mas que, descuidada, morre. Amor com flor é rima tosca, mas não passa da mais pura das verdades.

O amor, só com ele é possível aproveitar a vida. Ele vem com gotículas de sofrimento, feito orvalho na flor, mas que se há de fazer?

A resposta é simples: amar. Amar mais e com plenitude. Como isso é possível é pergunta e resposta diária. O que vale, no final, é sempre o amor e não os probleminhas que ele traz.

"Existirmos _a que será que se destina?"

"Apenas a matéria vida era tão fina."

Conselho de hoje:
Não valham dramáticos defeitos. Mas o que está depois.

terça-feira, 24 de dezembro de 2002

Como não morrer de véspera

Meu caro, véspera de Natal, o ano que logo termina e é preciso dizer: o mundo não vai nada bem.

Pesquisas mostram que o ser humano tem sofrido mais e bem mais do que deveria.

Agora, uma coisa é certa: muito desse sofrimento é absolutamente desnecessário.

É isso mesmo! Ou vai dizer que não conhece ninguém, uma tia, um primo distante que tenha o péssimo hábito de sofrer por antecipação? Você mesmo, não me enrola, sofre antes e inutilmente, como o peru que se dá conta de que vai morrer.

O peru _e pausa para comentar que as empresas deram para presentear funcionários com chester em vez de peru_ tem a pior das noites porque sabe que morre logo, no dia do nascimento de Cristo. E quer coisa mais sem sentido do que fazer da última a pior das noites?

Já que vai morrer, que o time vai perder, que o mundo vai acabar e você vai ficar mesmo sem sexo, por que sofrer hoje? O verbo no futuro mostra que o problema ainda não se fez presente. E, se o desagradável ainda não deu as caras, por que agir como se ele já tivesse se instalado de vez na sua suíte?

E peru lembra Mário de Andrade e seu mais que saboroso "O peru de Natal".

E já que chegamos ao Mário, vai um trecho dele, tudo a ver com o conselho de hoje:

QUARENTA ANOS
"A vida é pra mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar..."


Se você está triste porque passará o Réveillon sozinho, por que sofrer desde já? Será que não dá pra aproveitar o Natal? Será que até lá tudo não muda e então você descobrirá que sofreu à toa? Pois é, aconteceu comigo. Foi. Estava aqui, triste e abandonado, pensando que é que iria fazer da última noite de 2002. E não é que agora recebi a notícia de que terei a mais perfeita das companhias?

Prova de que há sempre uma esperança. Mesmo para o peru.

Sozinho, abandonado, o peru pode se descobrir feliz. Afinal, a idéia é aproveitar tudo _seja bebendo todas, beijando todas, ou bebendo o melhor dos vinhos e beijando a melhor das bocas. A idéia é aproveitar até a última gota que, na pior das hipóteses, será efetivamente a última. Sempre existe a chance de alguém ter pena do peru. Degola ali por pouco, guilhotina a postos e, olha lá, não é que alguém grita "Pobrezinho do peru!" e lhe enchem é o bucho de comida em vez de passarem a faca?

Tudo bem que, mais gordo, tanto peru quanto Joãozinho podem ter mais chances de morrer. Hipóteses causadoras de ansiedade inútil. E se não for assim e nada acontecer? E os minutos perdidos com o drama, quem é que devolve?

Ninguém.

Conselho de hoje:
O que vale nessa vida é ser feliz.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2002

Como reagir à TPM

Qual é o homem _cafajeste ou bonzinho_ que nunca chegou ao final do dia de saco muitíssimo cheio, cansado, com dor de cabeça e sintomas de ansiedade e desespero porque passou horas e horas suportando chiliques femininos? Pois é, não são todas, mas mulheres são as únicas capazes de dar chiliques femininos. Nós, em seguida ao chilique delas, damos o nosso chiliquinho masculino.

Caríssimo, isso tem nome e é uma patologia. Não sabe? O Cafajeste ensina.

TPTPM é o nome da coisa: Tensão Pós Tensão Pré-Menstrual.

A mulher que sofre com TPM costuma ficar mais sensível. Novidade? Nunca se sabe qual o tipo de público leitor de um blog. Para quem não sabe, embora não seja o sexo frágil, a mulher é um ser extremamente sensível _e isso é bom e ruim, entenda como quiser. Para os que têm a delicadeza (delicadeza não quer dizer viadagem, ô, cara-pálida) de observar e tocar a mulher amada de acordo com o nível de sensibilidade do momento, tudo bem. O problema é que, por vezes, é difícil medir quanto sensível está a moça.





Aí, se você diz A, ela entende B e responde C, fica complicada a convivência. Depois que passa a TPM dela, momento singular em que ela reagiu exageradamente a todas as coisas (tipo: chorou mais do que deveria, gargalhou mais, quis mais sexo, ficou magoada com cada vírgula das suas frases), tudo fica bem. Pra ela. Pra você, que agüentou toda a ebulição hormonal, os problemas começam.

Entenda uma coisa: assim que melhoram, elas querem que tudo esteja bem, sem mágoas da sua parte. Se ela exagerou, cabe a você compreender isso _é o que ela pensa! E é claro que não dá para sorrir naturalmente um segundo depois do último berro e ser magnânimo a ponto de compreender que a natureza dela a fez fazer loucuras, gritar com você etc. Mas, sabe qual o conselho do Cafajeste: sorria. Faça com que ela pense que tudo vai bem, que você é mesmo muito bonzinho.

Se conseguir, perdoe de fato. Se não, faça parecer que nada aconteceu.

MEU DEUS, este blog está ensinando os caras a mentir?!

Logo ele, o Cafajeste Auto-ajuda, tão romântico, tão cúti-cúti e tão "faço o tipo homenzinho ideal que todas vocês querem ter em casa"?

Pois vamos por partes:

1) O importante no chilique, feminino ou masculino, é que ele tenha classe, que seja feito com charme. Charminho é a coisa mais perdoável do planeta, todo mundo sabe. É gostoso, dá tesão. Mas charminho não é frescura, não é não-me-toque, é uma coisa estudadíssima e ao mesmo tempo espontânea. Charminho bem feito, mesmo com TPM, é uma beleza.

2) Mentir? Não, este site não recomenda mentir, fingir, trair ou enganar. O que recomendamos é sinceridade nua e crua. Dizer tudo na cara, mas com jeitinho.

3) Pergunte a qualquer mulher: ela quer ser perdoada após os exageros da TPM? Não, ela não quer! Sabe por quê? Porque ela sequer admitirá que cometeu exageros _exceto, é claro, se for a mulher perfeita. Ela quer é que tudo fique bem. Ela gosta de você, só que se descontrolou, é normal, todo mundo se descontrola. Não diga que perdoou, pois estará errando duplamente: mentindo e afirmando que existe algo a ser perdoado.

E o que fazer com a raiva? Sim, ela costuma ser o principal sintoma da TPTPM masculina!

Sobre isso, leia (e decore, como bom menino) o conselho "Como se lembrar de coisas boas".

O importante é não deixar que ela perceba a sua tensão. Demonstre, de outras maneiras, que ela exagerou. No final, a moçoila pensará: "Tadinho, todo amoroso e ainda gritei com ele..." Talvez ela possa recompensá-lo de alguma maneira.

Conselho de hoje:
Mesmo calada a boca, resta o peito. Silêncio na cidade não se escuta.

sábado, 30 de novembro de 2002

Como ser bonzinho

Calma, meu caro, já escutei você dizendo que homem bonzinho só leva ferro. Quem é que nunca ouviu dizer que mulher nenhuma gosta de homem bonzinho? O problema é que isso só é verdade em termos! Mulher nenhuma gosta de um homem só, apenas e tão somente bonzinho. Portanto, mais uma vez o Cafajeste irá ajudá-lo a ver o mundo com outros olhos.

Meu caro, o bonzinho em parte tem seu lugar, o nicho de mercado. O bonzinho por completo é chato, meloso, previsível. A vantagem do bonzinho em parte, pasme, é que ele é um pouco _é isso mesmo_ cafajeste.

Pensando que existem sim mulheres de malandro (aquelas que apreciam o espécime 100% cafa), é possível estabelecer que o espectro feminino vai da mulher de malandro até a moça boa e casadoira que acha que quer um bonzinho completo, diz pra todo mundo (a mãe, as tias, as vizinhas, as colegas do curso normal) que quer um bonzinho completo, mas, no fundo, quer mesmo é um rapazinho safado com cara de bonzinho.

QUE AS FEMINISTAS DE PLANTÃO NÃO FIQUEM TENSAS.

Ninguém, vai aqui a garantia, nenhum homem no planeta é mais feminista do que este Cafajeste Auto-ajuda. Escrevam isso: ninguém.

Isso significa que NÃO estou escrevendo este conselho para depreciar as mulheres _entre elas as simpáticas leitoras e colegas de blogofício. Escrevo porque é preciso mostrar que: primeiro, ninguém é, de fato, 100% bonzinho; e, segundo, que as mulheres não só podem, como devem exigir de seus companheiros, maridos e namorados um pouquinho de emoção, tesão e aventura.

O fator emoção pode ser traduzido pelo buquê de flores logo pela manhã. O fator aventura pode ser entendido pelo susto quando ele a surpreende por trás e diz coisas picantes ao seu ouvido. O fator tesão é a ponte entre o fator emoção e o fator aventura, e, quero crer, não demanda grande detalhamento. Pelo menos não neste horário.

A maneira ideal, portanto, de ser bonzinho é não ser bonzinho por inteiro.

O bonzinho completo pode ser doce, mas é sem emoção. Pode dar mil flores, em mil e um buquês, e ainda assim será sem graça! Não sabe apimentar os encontros, não diz coisas loucas, ele é bonzinho demais... Pode até pagar as contas, sendo essa uma vantagem, mas a mulher que o escolhe, nem ela mesma se engana: está predestinada ao desgosto.

O bonzinho em parte sabe que o tédio é um inimigo constante _e luta contra ele! O bonzinho em parte sai à noite com os amigos, mas conta para a amada no dia seguinte. Sai e é paquerado por todas, mas nem dá bola. Olha em volta e enxerga belos peitos, retaguardas interessantes _por que mentir?_, mas retorna apaixonado à sua pequena.

O 100% cafajeste não somente admira, tenta uma escapadinha. E, talvez, nem volte, nem avise, nem se importe. O bonzinho completo não sai, fica em casa vendo Zorra Total e agradecendo a Deus por ter uma mulher. O bonzinho em parte sai, vai para a farra, mas volta agradecendo a Deus por ter a mulher que tem, convencido de que melhor não há.

O cafajeste 100% é o que machuca, o que pisa, com ou sem coturno. O bonzinho completo é o que entedia, cansa, com ou sem bombons. O bonzinho em parte é o que sabe seguir o roteiro da Teresinha do Chico:

"Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"


Falta aprender, agora, como fazer isso. Saberá o amigo leitor ser bonzinho na medida certa?

O bonzinho aprenderá a ser cafa, e o cafa aprenderá a ser bonzinho?

Não perca os próximos conselhos de O Cafajeste Auto-ajuda.

Conselho de hoje:
Guerreiros são meninos por dentro do peito.

quarta-feira, 20 de novembro de 2002

Como se lembrar de coisas boas

É claro que o ideal é somente se lembrar das coisas boas _deixando de lado tudo o que é ruim. Isso é mais fácil do que parece.

Cafajeste que é cafajeste tem memória curta. Vai dizer que não tem? Por que então não usar essa habilidade mais que natural para o bem da humanidade?

Existem horas, é fato, em que o que se tem a fazer é esquecer. Para que ficar remoendo aquela pisadela no pé, aquele cocô de passarinho, aquela cara emburrada do colega de trabalho? Não vale a pena. Melhor pensar em coisas boas.

Pensar em coisas boas... Não era essa a receita de vôo do Peter Pan?

Agora vem a dica do século: como se lembrar somente de coisas boas?

A melhor maneira de fazer isso é, veja como é simples, esquecer completamente os episódios ruins.

Clique em lembranças negativas, selecione tudo e delete. Isso é o que faz o Cafajeste.

Meio caminho andado é não guardar rancor. Se tiver raiva, dê uns murros na parede _ou até no sujeito que passou dos limites_, mas não guarde o ódio para remoer depois. Se esse fosse um site mulherzinha, você leria: querida, não sinta raiva, faz mal pra pele.

NÃO SEREMOS HIPÓCRITAS A PONTO DE DIZER QUE É POSSÍVEL NÃO SENTIR RAIVA.

Meu caro, não é. Raiva é como frio, tesão, cheiro de café de vó: é impossível não sentir. Impossível viver em uma bolha, em um mundinho cor-de-rosa onde ninguém contraria ninguém! É normal querer partir a cara de alguém que puxou o seu tapete, querer que um ou outro maldito prove do próprio veneno. É impraticável gostar de tudo e de todos. É impensável que tudo saia exatamente como planejamos.

Enfim, já que não dá pra não sentir, melhor esquecer logo depois. Melhor colocar logo pra fora _gritar, chorar, bater_ e chegar ao fim do dia com a alma lavada.

Mais tarde, na hora de procurar uma lembrança, por mais que o cérebro tente, só vai achar coisas boas.

Quando é um amigo que vai embora, melhor que fiquem na memória as coisas legais que ele fez por você. E não aquele dia em que tudo deu errado. Quando termina o amor, melhor guardar aquela coisa engraçada que ela disse, e não o dia em que você broxou _a não ser, é claro, que ela tenha dito a coisa mais engraçada do planeta exatamente nesse momento infeliz.

Boas dicas para dias tristes: picolé de limão e passeio na chuva no meio da tarde. Se você for um tigre triste, também serve uma tigela de trigo.



Com esse exercício, a gente acaba descobrindo que há coisas que estão tão enraizadas, que já fazem parte de nós. Quer coisa pior do que descobrir que a raiva ou o desprezo que você tem pelo seu chefe faz parte do seu mais íntimo ser? Terrível.

Por isso é importante pensar nessas questões antes que o dia se torne história, a história se torne caso pra contar de noite e o caso pra contar de noite se torne o maior dos pesadelos. Tendo isso em mente, dá para identificar o que é bom _e aí sim fazer força para que a coisa boa faça parte de você, que venha passear várias vezes nos seus miolos. É assim que fica claro que há pessoas, e coisas, e gestos, e canções, e versos bobos em papel de pão, e dias na chuva, e beijos molhados, e tortas de maçã, e bochechos com água gasosa que são absolutamente impossíveis de apagar da memória.

Só peço a você um favor, se puder: não se esqueça das lições do Cafajeste. Para casos de amnésia absoluta, existe um link no final do site.

Conselho de hoje:
Tem pessoas que a gente não esquece nem se esquecer.

sexta-feira, 15 de novembro de 2002

Como saber quando parar

Sentimento é diferente de investimento. E isso tem conseqüências trágicas: mesmo o sujeito mais apaixonado pode se dar conta, de uma hora para outra, de que não acredita mais que o relacionamento pode dar certo. Mesmo amando, falta vontade e confiança para apostar todas as fichas.

Essa é a hora exata de dizer que não dá mais. Pode ser duro, pode ser mau, mas assim é a vida. Você pode ser chamado de doido _ou até de cafajeste. Bobagem, isso é questão de dignidade.

Não pense que é frieza minha, mas relacionamento é contrato. Seja casamento, namoro ou tico-tico no fubá, sempre começa com um acordo de vontades, com um querer exatamente o que o outro tem a oferecer, seja lá o que for. Se há concordância, o relacionamento é legítimo. E ponto.

Mas, se de uma hora para a outra alguém percebe que não vai ser feliz, que prefere de outro jeito, que não quer ser pobre e apaixonado, como sempre acreditou, mas rico (bem rico) e o resto que se dane, melhor dizer logo. Apesar do amor.

Primeiro, porque nessas condições o amor não dura muito. Depois, porque quem deixa de acreditar rompe o contrato, o acordo firmado entre os que se amam! Aí, por mais que não seja adequado berrar um "isso não", é dever de quem ama dizer "assim não".

Quando o amor permanece, mas há tempos foi-se o respeito ou a vontade de plantar e construir, melhor pular fora, cantar pra subir, dizer tchau e bênção. Pode ser sofrido a curto prazo, mas o efeito é proveitoso, se você pensar um pouco.

O amor pode até não dar certo, mas, para que tenha essa chance, é preciso que os envolvidos acreditem que dará. Essa confiança pode fazer toda a diferença! Ora bolas, se nem os pais acreditam no pirralho, se não o incentivam, se não cuidam dele, pouquíssimas chances ele terá de não ser medíocre.

Eu, que agora ando apaixonado _pois não só de cafajestagens pode viver o homem_, não quero nem pensar em dizer adeus. Contudo, mesmo no início do melhor dos relacionamentos, faço questão de ter em mente que o essencial é acreditar.

Quer coisa melhor que estar com alguém que acredita no amor? O amor é lindo, é verdade, mas precisa de investimento. Senão os beijos não têm graça...




Vai a prova de que o amor é livre, mas depende sempre da vontade de dois _recebi esse da menininha de olhos brilhantes. Diz ela que é de um grupo pernambucano chamado Cordel do Fogo Encantado:

Ai! Se Sêsse!...
(Zé da Luz)

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse...
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce!

E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!


Veja bem, é essa crença na vivacidade do amor que empurra a vela e põe o barco _com mar_ em disparada! A idéia é simples: se tiver fé na coisa, vá até o fim; se desacreditar, diga logo e suma. É só assim que a vida pode ser serena ou loucamente gostosa.

Eu, que faço o que digo, em todas as vezes que deixei de acreditar que chegaria à outra margem, abandonei o navio. Saltei, sem colete salva-vidas, de embarcações que adorava de paixão. E, como pode perceber, ainda não morri. Elas também passam bem, obrigado.

Conselho de hoje:
Quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade.

terça-feira, 12 de novembro de 2002

Como chorar nos braços de uma mulher

Homem que é homem não chora? Tolice.

Homem que é homem pode chorar _inclusive em comercial de Chambinho_ e mesmo assim manter a macheza.

Não digo que o que pensam de você não é importante. É, mas tudo tem limite. Até o mais durão dos caras sente uma vontadezinha de chorar de vez em quando. É normal, é saudável, ajuda a digerir a vida. Por que então franzir a testa e prender a lágrima? Fazer que nem precisa de ninguém, que dá conta sozinho?

Pois bem, que estive agora no largo do Arouche, deitado no colo da menina dos olhinhos brilhantes. E nada de neura ou medo, espanto ou pesadelo. Tava com vontade de chorar e chorei. Na frente dela.

Foi assim. Não tinha nenhum sofrimento enorme, nenhuma perda irreparável. Quis chorar pra colocar uma angústia pra fora do peito apertado.

Parecem mesmo estar no ar sufocado de São Paulo essas pequenas gotinhas de angústia e amor entrecortado. Uma dorzinha fina, de beliscão bem dado, mas lá dentro do peito. Feito garoa fina que entra sorrateira no coração de quem passa.

E, uma lágrima que desce, coisinha besta de poucos segundos, é uma enxurrada pra quem está meio derrubado.

Olha, que me lembrei agora de "A Limpeza de Teresa", livrinho sobre velhinha insana que saiu por aí limpando todo o mundo.

Vai em homenagem à Tereza Cândida:




A idéia, meu caro amigo, é não se preocupar tanto com o que vão dizer. Ela _seja moça, moçoila, namorada, vizinha, mulher de amigo, paquerinha, ficante ou amorzinho gostoso_ vai achar lindo. O espetáculo é rentoso, o Cafajeste assegura.

Vamos lá, quero que você se comprometa: ao menos tente.

Mas não finja. Em hipótese alguma pense que ela, mulher que o ama, não perceberá tamanha falsidade. Elas sempre percebem.

Para que a coisa funcione, é preciso que o exercício seja feito por completo. Somente com lágrimas legítimas, mesmo que de crocodilo, o momento será mágico e poderá ser guardado para sempre no coração dela... e também no seu, ora bolas.

Vamos, meu caro, abra os canais lacrimais! Eles _definitivamente_ não têm nada a ver com sexo.

Se bem que uma lagrimazinha...

Conselho de hoje:
Nem sempre se vê lágrima no escuro.

segunda-feira, 11 de novembro de 2002

Como iniciar um blog

Diz a lenda que não há receita especial, mas estou certo de que o blog certo, na hora certa, pode mudar a vida de alguém _ou pelo menos render uns bons momentos. Pois é, aconteceu comigo. Ele (o blog) disse "alô" em uma língua estranha. Eu, que não sou besta, fiz que nem era comigo. Mas, quando dei por mim, tava lá lendo todos os arquivos.

O blog de uma menininha doce, olhos com brilho de farol, despertou o que há de mais auto-ajuda neste Cafajeste. Daí para o Blogspot foi um pulo. Sim, meu caro, se ela curte Rouge, é preciso decorar a Ragatanga. Se ela gosta de florais de Bach, é preciso saber pra que diabo eles servem. Enfim, esta é a história de porque este blog foi criado. Simplesmente porque antes dele havia um outro muito melhor do que ele: o Moshi Moshi.

Para os que ainda continuam nesta página e perderam a oportunidade de daqui sair para jamais voltar, falemos sobre...

O que escrever em um blog recém-criado

Para começar um blog, mais do que qualquer coisa, é preciso muita vontade de ter um blog. A outra opção é estar por demais interessado em uma menininha que tenha um blog, que saiba tudo sobre blogs e que esteja apta a ser a Ombudsman do seu blog. Ter algo verdadeiramente especial a dizer é o que menos importa.

Portanto, que fique claro:

ESTE BLOG NÃO TEM NADA ESPECIAL A DIZER.

E, exatamente por isso, por dizer as coisas mais óbvias do planeta, ele pode mudar a sua vida.

É melhor aceitar isso: coisas pequenas e sem nenhuma importância aparente são capazes de dar rasteiras históricas em homens que dizem acreditar ter atingido a maturidade e estar preparados para a vida. Eu era um deles. Achava que era imune a essas coisas, tinha a certeza de que era forte. Mas, quando você menos espera, tá lá chorando em comercial de Chambinho.

PAUSA PARA REFLEXÃO:
O que aconteceu com os comerciais de Chambinho?
O que foi feito deles? Não têm apelo suficiente?
Por que não estão mais no horário nobre?

Sem trocadilhos, mas EU NÃO SEI POR QUÊ.

Um consolo para quem também lamenta o fim das propagandas ao som de Carinhoso: vá ao site e instale a TV Chambinho no seu micro.



E tudo isso pra dizer que homens não são menos homens porque se emocionam com pequenas coisas. :o)

Conselho de hoje:
Com blog ou sem blog, é melhor ser alegre que ser triste.